A IDENTIDADE PESSOAL E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 

 

 

“Eu permanecerei em Borges, não em mim próprio (se é verdade que eu sou alguma coisa), mas eu reconheço‑me menos nos seus livros do que no de muitos outros ou no toque laborioso de uma guitarra. Há anos tentei ver­‑me livre dele e passei das mitologias dos subúrbios aos jogos com o tempo e o infinito, mas esses jogos pertencem agora a Borges e terei que imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo pertence ao esquecimento ou a ele.”

 

Jorge Luis Borges, “Borges e eu”

 

 

1. O Teste de Turing

 

"Suponha se que alguém consegue inventar um computador que pode de facto levar a cabo uma conversa inteligente com uma pessoa (acerca de tantos assuntos quantos os que uma pessoa inteligente pudesse discutir). Como se pode decidir se o computador é «consciente»?

O lógico inglês Alan Turing propôs o seguinte teste: deixe-se alguém ter uma conversa com um computador e uma conversa com uma pessoa que não conhece. Se esse alguém não conseguir dizer qual é o computador e qual é o ser humano, então (assumindo que o teste é repetido um número suficiente de vezes com diferentes interlocutores) o computador é consciente. Em suma, uma máquina de computação é consciente se conseguir passar o «teste de Turing». (As conversas não devem ser tidas face a face, claro, visto que o interlocutor não deve saber a aparência visual de nenhum dos seus dois parceiros de conversação. Tão‑pouco deve ser usada a voz de algum deles, uma vez que a voz mecânica podia simplesmente ser diferente da voz humana. Imagine se, antes, que as conversas são todas efectuadas por meio de uma máquina de escrever eléctrica. O interlocutor escreve aí os seus enunciados, questões, etc., e os dois parceiros - a máquina e a pessoa - respondem via teclado eléctrico. Além disso, a máquina pode mentir - perguntado «Você é uma máquina», ela poderia responder, «Não, sou um assistente aqui do laboratório».)” (Hilary Putnam, Reason, Truth, and History, Cambridge University Press, 1981, pp.8‑9 [Razão, Verdade e História, trad.port., Lisboa, Dom Quixote, p.31])

 

2. O Algoritmo da Mente

 

“A ideia [da teoria da IA-forte] é a de que a actividade mental é simplesmente a execução de alguma sequência bem definida de operações, frequentemente referida como um algoritmo. (…) É suficiente definir um algoritmo simplesmente como uma espécie de procedimento calculatório. No caso de um termóstato o algoritmo é extremamente simples: o mecanismo regista se a temperatura é maior ou menor do que um valor fixado e depois desliga ou liga o circuito, conforme o caso. No caso de uma actividade significativa do cérebro humano o algoritmo teria de ser extremamente mais complicado mas, de acordo com o ponto de vista IA-forte, não deixaria por isso de ser um algoritmo. Diferiria fortemente em grau de complexidade do algoritmo simples do termóstato, mas não necessariamente no princípio subjacente. Assim, de acordo com a IA-forte, a diferença entre o funcionamento essencial do cérebro (com todas as manifestações conscientes) e o de um termóstato reside apenas na muito maior complicação (ou talvez ‘estrutura de ordem superior’ ou ‘propriedades auto-referenciais’ ou algum outro atributo que seja atribuível a um algoritmo) no caso do cérebro. O que é mais importante é que todas as qualidades mentais – pensamento, sentir, inteligência, compreensão, consciência – devem ser encaradas, de acordo com o ponto de vista, meramente como aspectos desse funcionamento complicado, isto é, são meras funções do algoritmo executado pelo cérebro. (…) Mas se existe um tal algoritmo para o cérebro – e os proponentes da IA-forte certamente defendem quem sim – então ele poderia em princípio correr num computador. Na verdade, se não fossem as limitações de memória e velocidade de processamento ele poderia correr num qualquer computador electrónico moderno para uso geral. (…) Prevê‑se que tais limitações poderão ser ultrapassadas nos grandes e rápidos computadores de um futuro não muito distante. Numa tal eventualidade, um tal algoritmo, se for encontrado, passaria presumivelmente o teste de Turing. Os defensores da IA‑forte pretenderiam que sempre que o algoritmo corresse ele próprio experimentaria sentimentos, teria uma consciência, seria uma mente. Está longe da verdade que toda a gente esteja de acordo em fazer uma tal identificação entre os estados mentais e algoritmos. John Searle (…), em particular, disputou fortemente esse ponto de vista.” (Roger Penrose, A Mente Virtual (The Emperor’s New Mind). Sobre computadores, mentes e as leis da física, trad.port., Lisboa, Gradiva, pp.35‑36).

 

 

3. A Parábola do Quarto Chinês

 

"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.

Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].

Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).

 

4. Sentido e referência

 

"É verdade que a máquina pode discursar lindamente sobre, digamos, a paisagem do Alentejo. Mas não conseguiria reconhecer uma macieira ou uma maçã, uma montanha ou uma vaca, um campo ou um campanário, se estivessem na sua frente.

O que temos é um dispositivo para produzir frases em respostas a frases. Mas nenhuma dessas frases está de modo nenhum ligada ao mundo real. Se ligássemos duas dessas máquinas e as deixássemos jogar o jogo da imitação uma com a outra, elas continuariam a «enganar‑se» uma à outra para sempre, mesmo que o resto do mundo desaparecesse! [...] O que produz aqui a ilusão de referência, de significação, de inteligência, etc., é o facto de nós termos uma convenção de representação sob a qual o discurso da máquina se refere a maçãs, campanários, ao Alentejo, etc. [...] Não há razão para encarar o discurso da máquina (ou das duas máquinas, no caso que imaginámos das duas máquinas jogando o jogo da imitação uma com a outra) como mais que um jogo sintáctico." (Hilary Putnam, Reason, Truth, and History, Cambridge University Press, 1981, pp.10-11; Razão, Verdade e História, trad.port., Lisboa, Dom Quixote, pp.32-33).

 

5. O que é um bit?

 

"Que é que permite à vida compensar a entropia? Porquê a lei da natureza, que consente que a desordem e o caos aumentem, se encontra impotente perante ela? A fim de esclarecer este mistério, é necessário tomar conhecimento de um outro fenómeno. Estamos ligados a ele ao lermos este livro, encontramo‑lo a cada passo: à chegada do autocarro, nas carteiras do estudante, no futebol, no cinema, por toda a parte, em todas as circunstâncias... É‑nos indispensável como o ar e a água. Constitui o elemento da nossa inteligência, é através dele que aprendemos na escola, que lemos livros, escutamos telefonia. Esse fenómeno é a informação. Se a entropia é a medida do caos, da desordem, a informação é a medida da ordem e de algum modo uma «medida da vida». A informação é a negação da entropia.

«O saber é a luz e a ignorância as trevas», diz o adágio bem conhecido. Do mesmo modo, a entropia representa as «trevas» e a informação a «luz», o conhecimento que vem dissipar as trevas.

Mas há saber e saber. Que pode haver de comum entre o saber que horas são e o da tábua de logaritmos, entre o conhecimento do resultado de um desafio de futebol e o do vosso itinerário nas ruas de Lisboa ou de Paris?

Verifica se a existência dum ponto comum e de métodos que permitem definir a quantidade de informação. Em 1940 nasceu uma nova disciplina matemática, a «teoria da informação». Ensina a medir quantitativamente a informação contida nas mensagens mais variadas, quer se trate dum relatório de empresa ou dum poema de Pushkin, uma conversação telefónica ou um concerto para violino de Bach, um boletim meteorológico ou os apontamentos dum caderno escolar.

Mas não precipitemos as coisas. Comecemos pelo mais elementar. É evidente que cada um de nós está convencido desta simples verdade: para obter um conhecimento qualquer é necessário primeiramente ignorar o que esse conhecimento ensina! Com efeito, é pouco provável que adquiram novos conhecimentos se o autor deste livro lhes ensinar que 2x2=4 e que 5x7=35. Porquê? Muito simplesmente porque já o sabem. O conhecimento duma certa coisa, quer dizer a obtenção duma informação, só é possível perante a ignorância prévia. Na teoria da informação esta ignorância é chamada indeterminação. Quanto maior for a quantidade de indeterminação que a mensagem recebida suprime, mais importante será a informação que pode ser medida quantitativamente por números. [...] A noção de informação, do mesmo modo que a noção de entropia, está organicamente ligada à probabilidade de acontecimentos. [...] Nenhum estudante ignora que a unidade de comprimento é o metro. Para unidade de medida da informação escolheu‑se uma grandeza chamada «bit» (…). «Bit» é abreviatura da expressão inglesa «binary digit» que em português significa «sinal binário». [...] A que é igual um «bit»? [...] Um bit é a informação fornecida por dois acontecimentos equiprováveis, uma das soluções possíveis: «sim» e «não». [...] Mas como medir a informação nas mensagens em que três, seis, dez, cem ou dez mil eventualidades seriam possíveis? (Por exemplo, o número de combinações de moléculas de proteínas que estão na base da vida é medida por um número formada pela unidade seguida de 1300 zeros. O número que exprime a quantidade de variantes possíveis dum texto poético do volume de «Eugénio Onieguine» de Pushkin escreve‑se com o auxílio da unidade seguida de 53000 zeros!). [...] A informação possui uma propriedade espantosa: ao transmitirmos os nossos conhecimentos aos outros, nós não os perdemos. Ao proclamar na página anterior que a informação é medida em bits, o autor deste livro não perdeu por isso o conhecimento do facto." (A.Kondratov, ABC da Cibernética, trad.port., Lisboa, Presença, 25-33).

 

6. O mundo como realidade virtual

 

“Eis uma possibilidade de ficção científica discutida pelos filósofos: imagine‑se que um ser humano (pode imaginar que é você mesmo) foi sujeito a uma operação por um cientista perverso. O cérebro da pessoa (o seu cérebro) foi removido do corpo e colocado numa cuba de nutrientes que o mantém vivo. Os terminais nervosos foram ligados a um supercomputador científico que faz com que a pessoa de quem é o cérebro tenha a ilusão de que tudo está perfeitamente normal. Parece haver pessoas, objectos, o céu, etc.; mas realmente tudo o que a pessoa, (você) está experimentando é o resultado de impulsos electrónicos deslocando‑se do computador para os terminais nervosos. O computador é tão esperto que se a pessoa tenta levantar a mão, a retroacção do computador fará com que ela «veja» e «sinta» a mão sendo levantada. Mais ainda, variando o programa, o cientista perverso pode fazer com que a vítima «experiencie» (ou se alucine com) qualquer situação ou ambiente de que ele deseje. Ele pode também apagar a memória com que o cérebro opera, de modo que à própria vítima lhe parecerá ter estado sempre neste ambiente. Pode mesmo parecer à vítima que ela está sentada e a ler estas mesmas palavras sobre a divertida mas completamente absurda suposição de que há um cientista perverso que remove os cérebros das pessoas dos seus corpos e os coloca numa cuba de nutrientes que os mantém vivos. (…). Suponhamos que toda esta história era de facto verdadeira. Poderíamos nós, se fôssemos assim cérebros numa cuba, dizer ou pensar que o éramos?” (Hilary Putnam, Reason, Truth, and History, Cambridge University Press, 1981, pp.5-6; Razão, Verdade e História, trad.port., Lisboa, Dom Quixote, p.29).

 

7. A Matrix enquanto hipótese metafísica

 

“O filme Matrix apresenta-nos uma versão de uma velha fábula filosófica: um cérebro numa cuba. Um cérebro sem corpo flutua numa cuba que, por sua vez, está no laboratório de um cientista. O cientista encontrou maneira do cérebro ser estimulado com o mesmo tipo de inputs que um cérebro normal costuma receber quando está num corpo. Para se conseguir isto, o cérebro na cuba está ligado a uma gigante simulação do mundo. A simulação determina então quais são os inputs que o cérebro recebe. Por sua vez, quando o cérebro produz outputs estes são enviados para a simulação. O estado de funcionamento deste cérebro é igual ao de um cérebro normal, apesar de não estar num corpo. Da perspectiva deste cérebro as coisas são muito semelhantes àquilo que parecem a mim e a si.

Mas parece que este cérebro está completamente enganado. Parece que tem crenças falsas sobre tudo. Acredita que tem um corpo, quando afinal não tem. Acredita que está lá fora ao Sol, quando afinal está num laboratório escuro. Acredita que está num determinado sítio, quando, de facto, pode estar noutro completamente diferente. Talvez pense que está em Lisboa, quando afinal está na Austrália ou mesmo no espaço sideral.

A situação do Neo no início do filme Matrix é similar a esta. Ele pensa que vive numa determinada cidade, pensa que tem cabelo, pensa que vive em 1999, e pensa também que está Sol lá fora. Mas, na realidade, flutua no espaço, não tem cabelo, o ano em que está é aproximadamente 2199, e o seu mundo foi arrasado pela guerra. Há contudo algumas diferenças entre este cenário do Neo e o do cérebro numa cuba exposto inicialmente: o cérebro do Neo está de facto num corpo e a simulação é controlada por máquinas e não por um cientista. Mas os pormenores essenciais são bastante idênticos em ambos os casos. Efectivamente, Neo é um cérebro numa cuba.

Vamos supor que uma matrix (com "m" minúsculo) é um certo tipo de simulação computacional artificialmente gerada de um mundo. Deste modo, a Matrix do filme é um possível exemplo de uma matrix. Vamos também supor que alguém está incubado, ou que está dentro de uma matrix, desde que esse alguém tenha um sistema cognitivo que receba inputs de - e envie outputs para - uma matrix. Neste caso, tanto o cérebro de que falávamos no início como o próprio Neo estão incubados. (…)

Quando se levanta a possibilidade de uma matrix surge imediatamente uma questão. Como posso saber que eu não estou numa matrix? Afinal, posso muito bem ser um cérebro numa cuba que tem exactamente a mesma constituição que o meu próprio cérebro; esse cérebro pode estar ligado a uma matrix, e, por isso, pode ter experiências indistinguíveis das que tenho neste momento. Do interior [da matrix] não há forma segura de afirmar que não sou de facto um cérebro numa cuba. Assim, não podemos saber de certeza se não estamos numa matrix. Vamos agora chamar à hipótese de que eu estou numa matrix, e sempre estive numa matrix, a Hipótese matrix. A Hipótese matrix afirma que eu estou, e sempre estive, incubado. (…) Devemos ponderar Hipótese matrix seriamente, bem como considerá-la uma forte possibilidade. Tal como Nick Bostrom sugeriu, não está fora de questão que na história do universo haja tecnologia que permita a certos seres criar simulações computorizadas de mundos. Pode até haver um grande número de tais simulações, por oposição a apenas um mundo real. (…) Independentemente deste raciocínio estar certo ou errado, parece realmente que não podemos estar certos que não estamos de facto numa matrix.

Sérias consequências parecem seguir-se do que foi dito. Por exemplo, a minha contraparte incubada parece estar a ser massivamente enganada. Pensa que está em Lisboa; pensa que está sentada a escrever um artigo; pensa que tem um corpo. Mas, face ao que se disse, todas estas crenças são falsas. Da mesma maneira, parece que, se eu estou incubado, as minhas próprias crenças são falsas. Eu não estou realmente sentado a escrever um artigo e eu posso mesmo não ter um corpo. Assim, se eu não sei que eu não estou realmente incubado, então eu também não sei se estou em Lisboa, ou se estou sentado em frente à minha secretária a escrever um artigo, ou sequer se tenho um corpo. A Hipótese matrix ameaça pôr em causa quase tudo aquilo que eu julgo saber. Parece uma Hipótese céptica: uma hipótese que eu não posso excluir, e uma hipótese que poderia falsificar grande parte das minhas crenças se elas fossem verdadeiras. Quando se nos apresenta uma hipótese céptica desta natureza parece que nenhumas das nossas crenças podem ser consideradas conhecimento genuíno. (…) Resumindo o raciocínio: eu não sei se não estou numa matrix. Se estou numa matrix, então provavelmente não estou em Lisboa. Assim, se eu não sei se não estou numa matrix, então também não sei se estou em Lisboa. O mesmo se aplica para quase tudo que eu julgo saber acerca do mundo exterior. (…)

Esta é a maneira normal de pensarmos o cenário da cuba. Parece que esta visão do problema é também adoptada pelos criadores do filme matrix. Na caixa do DVD pode ler-se o seguinte:

Percepção: A rotina de todos os dias no mundo é real.
Realidade: O mundo é uma ilusão sofisticada, um embuste forjado por máquinas maximamente poderosas que nos controlam. Whoa!

Penso que esta perspectiva não é inteiramente correcta. Julgo que, mesmo que eu esteja numa matrix, o meu mundo é perfeitamente real. Um cérebro que esteja numa cuba não está completamente iludido (desde que tenha estado sempre na cuba). O Neo não tem crenças massivamente falsas acerca do mundo exterior. Em vez disso, os seres que estão incubados têm bastantes crenças correctas acerca do seu mundo. Se for assim, então a Hipótese matrix não é uma hipótese céptica, e a sua eventual possibilidade não invalida tudo o que eu penso saber.

Houve filósofos que defenderam este tipo de teoria no passado. George Berkeley, um filósofo do século XVIII, defendeu que a aparência é a realidade. (Recordemos as palavras de Morpheus no filme: "O que é o real? Como defines o real? Se estamos a referir-nos àquilo que podes sentir, ou àquilo que podes cheirar, ou ainda àquilo que podes saborear ou ver, então o real é simplesmente um conjunto de impulsos eléctricos interpretados pelo teu cérebro.") Se isto está correcto, então o mundo percepcionado por seres que estão incubados é um mundo perfeitamente real: eles têm todas as suas percepções correctas e, assim, o que aparece é a realidade. Desta perspectiva, mesmo seres que estão incubados têm crenças verdadeiras acerca do mundo.

Dei comigo recentemente a adoptar uma conclusão parecida, embora por razões manifestamente diferentes. Não julgo que a perspectiva segundo a qual o que aparece é a realidade seja plausível, e portanto não apoio o raciocínio de Berkeley. E, até há pouco tempo, parecia-me manifestamente óbvio que os cérebros em cubas teriam de ter crenças massivamente falsas. Mas agora penso que há uma linha de argumentação que mostra que essa teoria está errada.

Ainda penso que não posso excluir a hipótese de que estou numa matrix. Mas também penso que, mesmo que eu esteja neste momento numa matrix, eu ainda estou em Lisboa na minha secretária, e por aí adiante. Deste modo, a hipótese de que estou numa matrix não seria mais uma hipótese céptica. (…) Esta perspectiva parece à partida muito contra-intuitiva. Inicialmente, pareceu-me manifestamente contra-intuitiva. Então vou agora apresentar a linha de argumentação que me convenceu de que está correcta. (…)

A hipótese metafísica

Vou agora argumentar que a hipótese de que estou incubado não é uma hipótese céptica, mas antes uma hipótese metafísica. Ou seja, é uma hipótese sobre a natureza fundamental da realidade.

Enquanto a física se preocupa com os processos microscópicos que constituem a realidade macroscópica, a metafísica preocupa-se com a natureza fundamental da realidade. Uma hipótese metafísica pode inclusivamente ser uma proposta sobre que realidade subjaz aos fenómenos físicos. Alternativamente, pode até dizer alguma coisa sobre a natureza das nossas mentes, ou até mesmo sobre a criação do mundo.

Penso que a Hipótese matrix deve ser vista como uma hipótese metafísica, na qual estão contidos os três elementos seguintes: uma proposta sobre a realidade fundamental que está subjacente aos processos físicos, uma proposta sobre a natureza das nossas mentes, e uma proposta sobre a criação do mundo.

Em particular, penso que a Hipótese matrix é equivalente a uma versão tripartida da seguinte Hipótese Metafísica: Primeiro, os processos físicos são fundamentalmente processos computacionais. Segundo, os nossos sistemas cognitivos estão separados dos processos físicos, embora interajam com esses processos. Terceiro, a realidade física foi criada por seres que estão fora do espaço-tempo físico.

É importante notar que nada nesta hipótese metafísica tem um carácter céptico. Esta hipótese metafísica sugere quais são os processos que sustentam a nossa realidade normal, mas não defende que essa realidade não existe. Nós ainda temos corpos, e ainda há cadeiras e mesas: apenas a sua natureza fundamental é um pouco diferente da forma como pensamos que é. Desta maneira, a hipótese metafísica é análoga a uma qualquer hipótese física, como [por exemplo] a que relativa à mecânica quântica. Ambas as hipóteses, tanto a física como a metafísica, dizem-nos quais os processos que constituem as cadeiras. Nenhuma delas defende que não há cadeiras. Em vez disso, ambas dizem que as cadeiras são como são. (…)

 (1) A Hipótese da Criação

Esta Hipótese diz: O espaço-tempo físico, e todo o seu conteúdo, foram criados por seres que estão fora do espaço-tempo físico.

Esta hipótese é conhecida. Muitas pessoas na nossa sociedade acreditam nela, e talvez até uma grande maioria de pessoas em todo o mundo. Se acreditamos que Deus criou o mundo, e se acreditamos que Deus está fora do espaço-tempo físico, então também acreditamos na Hipótese da Criação. Apesar disso, não precisamos de acreditar em Deus para acreditar na Hipótese da Criação. Talvez o nosso mundo tenha sido criado por um ser relativamente normal que está no "universo mais próximo acima do nosso", e que esse ser tenha usado a última palavra em tecnologia de criação de mundos disponível nesse universo. Se for o caso, então a Hipótese da Criação é verdadeira.

Não sei se a Hipótese da Criação é verdadeira. Mas não tenho a certeza de que é falsa. A hipótese é claramente coerente, e, por isso, não posso conclusivamente exclui-la.

A Hipótese da Criação não é uma hipótese céptica. Mesmo que seja verdadeira, as minhas crenças habituais continuam verdadeiras. Eu ainda tenho mãos, ainda estou em Lisboa e por aí adiante. (…)

(2) A Hipótese Computacional

Esta hipótese diz: Os processos microfísicos que encontramos no espaço-tempo são constituídos por processos computacionais que lhes estão subjacentes.

A Hipótese Computacional diz-nos que os processos físicos que julgamos constituírem o nível mais fundamental da realidade afinal podem não o ser. Tal como os processos químicos estão na base de processos biológicos, e tal como processos microfísicos estão na base de processos químicos, também qualquer coisa está subjacente aos processos microfísicos. Por baixo do nível dos quarks, electrões e fotões, há ainda mais um nível: o nível dos bits. Estes bits são geridos por um algoritmo computacional, que, a um nível mais elevado, produz os processos que nós pensamos serem as partículas fundamentais, as forças, etc. A Hipótese Computacional não é tão vastamente aceite quanto a Hipótese da Criação; mas ainda assim há algumas pessoas que a consideram bastante plausível. (…) Vários Físicos têm investigado a possibilidade das leis naturais poderem ser formuladas computacionalmente ou de poderem ser vistas como uma consequência de certos princípios computacionais. Podemos ficar preocupados com a ideia de que puros bits não sejam afinal o nível mais fundamental da realidade: um bit é apenas um 0 ou um 1, e a realidade não pode ser feita de zeros e uns. Ou talvez um bit seja apenas a "diferença pura" entre dois estados fundamentais, e assim não possa haver uma realidade feita de diferenças puras. Inversamente, talvez os bits até tenham que ter a sua origem em estados ainda mais básicos, tais como as voltagens num computador normal. Não sei se estas objecções são correctas. Penso que não está completamente fora de questão que possa haver um universo constituído por "bits puros". Mas isso não interessa para o nosso objectivo presente. Podemos até supor que o nível computacional é constituído por um nível ainda mais fundamental, a partir do qual os processos computacionais são implementados. O que interessa é que os processos microfísicos sejam constituídos por processos computacionais, e que estes sejam constituídos por processos ainda mais fundamentais. (…)

A Hipótese computacional não é uma hipótese céptica. Se é verdadeira, ainda há electrões e protões. Desta perspectiva, os electrões e os protões seriam análogos às moléculas: são constituídas por algo mais elementar, mas ainda assim existem. Igualmente, mesmo que a Hipótese Computacional seja verdadeira, continuarão a existir mesas e cadeiras, e a realidade macroscópica continua a ser um facto; apenas acontece que a sua constituição fundamental é um pouco diferente daquela que estamos habituados a pensar. Esta situação é a análoga à da Mecânica Quântica ou à da Teoria da Relatividade. Estas teorias podem levar-nos a rever algumas das crenças metafísicas que temos a propósito do mundo exterior; por exemplo, que o mundo é constituído por partículas clássicas ou que o tempo é absoluto. Mas a maior parte das nossas crenças habituais sobre o mundo mantém-se. Da mesma maneira, a nossa aceitação da Hipótese Computacional pode levar-nos a rever algumas das nossas crenças metafísicas; por exemplo, que os electrões e os protões são partículas fundamentais. Mas, ainda assim, uma grande parte das nossas crenças habituais não é afectada.

(3) A Hipótese Mente-Corpo

Esta Hipótese afirma: A minha mente é (e sempre foi) constituída por processos que estão fora do espaço-tempo físico. A minha mente recebe inputs de - e envia os seus outputs para - processos no espaço-tempo físico. A Hipótese Mente-Corpo é também bastante conhecida, e largamente aceite. Descartes acreditava em algo do género: na sua perspectiva, as mentes são coisas não físicas que interagem com os nossos corpos, que são coisas físicas. A Hipótese é menos aceite actualmente do que no tempo de Descartes, mas ainda assim há muitas pessoas que a aceitam. (…) A Hipótese Mente‑Corpo não é uma hipótese céptica. Mesmo que a minha mente esteja fora do espaço-tempo físico, eu continuo a ter um corpo, eu ainda estou em Lisboa, e por aí adiante. No máximo, a aceitação desta hipótese iria obrigar-nos a rever algumas das nossas crenças metafísicas sobre as nossas mentes. As nossas crenças habituais sobre a realidade exterior permanecem em grande medida intactas.

(4) A Hipótese Metafísica

Podemos agora juntar estas hipóteses. (…) Eis a configuração do mundo segundo [est]a Hipótese (…):

O resultado disto é um quadro complexo da natureza fundamental da realidade. O quadro é, talvez, estranho e surpreendente; mas é um quadro de um mundo exterior de carne e osso. Se estamos numa matrix, esta é simplesmente a forma de ser do mundo.

Podemos pensar na Hipótese matrix como um Mito Criacionista da Era Informática. (…)

Muitos dos problemas que se levantaram com os mitos criacionistas canónicos colocam-se também neste caso. Quando foi o mundo criado? Estritamente falando, o mundo não foi de forma nenhuma criado no interior do nosso tempo. Quando começou a história? Os criadores podem ter iniciado a simulação em 4004 AC (ou em 1999) com o registo fóssil completo, mas teria sido muito mais fácil para eles terem iniciado a simulação com o Big Bang e deixarem as coisas correr normalmente desde esse momento. (…) Muitos dos problemas que se levantaram com a hipótese mente-corpo canónica colocam-se também neste caso. Quando é que a nossa mente não-física começa a existir? Isso depende de quando os novos sistemas cognitivos incubados são inseridos na simulação (talvez no momento da concepção da matrix, ou talvez no momento do nascimento). Há vida após a morte? Isso depende do que acontece aos sistemas incubados depois da morte dos seus corpos. Como é que corpo e mente interagem? Por intermédio de ligações causais que estão fora do espaço-tempo físico.

(…) Os habitantes de uma matrix também podem ser enganados por serem levados a pensar que a sua realidade é muito mais vasta do que realmente é. Podem pensar que tudo o que existe é o universo físico, quando, de facto, há muito mais no mundo, incluindo seres e objectos que nunca poderão ver. Mas, mais uma vez, este tipo de preocupação pode também levantar-se no caso de um mundo não-matrix. Por exemplo, alguns cosmólogos sustentam a ideia de que o nosso universo pode ter a sua "origem" num buraco negro situado no "universo mais próximo acima do nosso", bem como que, na realidade, pode haver uma ramificação de vários universos interligados. Se for verdade, então o mundo é muito maior do que pensamos, e pode haver seres e objectos que nunca poderemos ver. Mas, em qualquer dos casos, o mundo que vemos é perfeitamente real. De salientar que nenhuma destas fontes de cepticismo — sobre as mentes dos outros, sobre o passado e o futuro, sobre o nosso controlo sobre o mundo, e sobre o tamanho do mundo — lança dúvidas sobre a nossa crença da realidade do mundo ser aquela que percepcionamos. Nenhuma delas nos leva a duvidar da existência de objectos exteriores como mesas ou cadeiras, no sentido em que a hipótese do incubamento é suposto fazer. (…) Sugeri que não está fora de questão estarmos realmente numa matrix. Poderíamos até ter pensado que esta era uma conclusão preocupante. Mas, se estou correcto, não é uma conclusão tão preocupante como poderíamos pensar. Mesmo que estejamos nessa matrix, o mundo não deixa por isso de ser tão real como pensamos que é. É apenas um mundo com uma natureza fundamental surpreendente.”

(David J. Chalmers, “The Matrix as Metaphysics” [http://consc.net/papers/matrix.html), trad.port. de Luís Estevinha, http://www.criticanarede.com/meta_matrix.html).

 

8. “A Escrita de Deus”

 

“Um dia ou uma noite — entre os meus dias e as minhas noites que diferença há? — sonhei que no chão de cárcere havia um grão de areia. Voltei a dormir, indiferente; sonhei que despertava e que havia dois grãos de areia. Voltei a dormir; sonhei que os grãos de areia eram três. Foram‑se, assim, multiplicando até encher o cárcere e eu morria sob esse hemisfério de areia. Compreendi que estava a sonhar; com um enorme esforço, despertei. O despertar foi inútil: a areia inumerável sufocava‑me. Alguém me disse: «Não despertaste para a vigília, mas para um sonho anterior. Es­se sonho está dentro de outro, e assim até ao infinito, que é o número dos grãos de areia. O caminho de regresso é interminável e morrerás antes de ter despertado realmente.»

Senti‑me perdido. A areia enchia‑me a boca, mas gritei: «Nenhuma areia sonhada pode matar‑me nem há sonhos dentro dos sonhos.» Um resplendor despertou‑me. Na treva superior abria‑se um círculo de luz. Vi a face e as mãos do carcereiro, a roldana, a corda, a carne e os cântaros.

(…) Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar. Ocorreu a união com a divindade, com o universo (não sei se estas palavras diferem). O êxtase não re­pete os seus símbolos; há quem tenha visto Deus num resplendor, há quem o tenha percebido numa espada ou nos círculos de uma rosa. Eu vi uma Roda altíssima, que não estava diante dos meus olhos, nem atrás, nem dos lados, mas em toda a parte ao mesmo tempo. Essa Roda era feita de água, mas também de fogo, e era (embora se visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam‑na todas as coisas que serão, que são e que foram, e eu era um dos fios dessa trama total (…). Vi as mon­tanhas que surgiram da água, vi os primeiros homens com o seu bordão, vi as tena­zes que se voltaram contra os homens, vi os cães que lhes destroçaram os rostos. Vi o deus sem rosto que há por trás dos deuses. Vi infinitos processos que forma­vam uma só felicidade e, entendendo tudo, consegui entender a escrita do tigre. (…) Que morra comigo o mistério que está escrito nos tigres. Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo, não pode pensar num homem, nas suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. [...] Por isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na escuridão.” (Jorge Luis Borges, “La Escritura del Dios” in Aleph, Madrid, Alianza Editorial, 1997 [1949], pp.138-141; “A Escrita de Deus” in Obras Completas I, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, pp.619‑620).

 

 

“Nada é pior do que perder-se a si próprio, visto que quando alguém perde tudo, a liberdade é a única riqueza que permanece.”

Mahābhārata

 

 

RETORNAR