SIMON BLACKBURN E A IDENTIDADE PESSOAL

 

“Locke afirma que é «a mesma consciência que faz o homem ser ele mesmo para si mesmo» – e nem o sujeito nem terceiros estão preocupados em saber se tal consciência é «transportada» por substâncias estáveis ou por uma sucessão de substâncias diferentes. O próprio Locke enfatiza a consciência afirmando que uma pessoa A, num dado momento, é a mesma pessoa que B, num momento anterior, na medida em que A tenha consciência das experiências de B. Por outras palavras, A terá de lembrar‑se de ter pensado o que B pensou e de ter percepcionado, sentido e agido como B percepcionou, sentiu e agiu.

A sugestão tem algumas consequências que nos podem agradar. Por exemplo, elimina a possibilidade de eu ser Cleópatra reencarnada, visto que não tenho consciência de ter feito ou sentido coisa alguma que Cleópatra tenha feito ou sentido. O desaparecimento da memória destrói a identidade pessoal. (…) Por outro lado, a sugestão tem outras consequências de que não gostaremos tanto. Implica, por exemplo, que eu não posso sobreviver a uma amnésia total, posto que, seja qual for a pessoa que permaneça após tal acontecimento, não pode ser eu. Mas também há problemas com uma amnésia parcial. Suponhamos que cometo um crime, mas que devido a um calamitoso fluxo de sangue ou de adrenalina, fico sem memória do momento em questão. Parece seguir-se da teoria de Locke que eu não sou a pessoa que cometeu o crime. Sou o mesmo ser humano, mas não a mesma pessoa. Parece que um ser humano é habitado por múltiplas personalidades à medida que as memórias vão e vêm.

Thomas Reid apresentou uma versão deste problema, «a objecção do militar corajoso» (brave officer objection):

 

“Suponhamos que um militar corajoso foi punido na escola por ter roubado um pomar, que na sua primeira campanha derrotou o inimigo e que foi promovido a general já em idade avançada; suponhamos também, o que pode ser possível, que quando derrotou o inimigo, tinha consciência de ter sido punido na escola e que, quando foi promovido a general, tinha consciência de ter derrotado o inimigo, embora tenha perdido completamente a consciência da sua punição em criança. Supondo estas coisas, segue‑se da doutrina do Sr. Locke que quem foi punido na escola é a mesma pessoa que derrotou o inimigo e que quem derrotou o inimigo é a mesma pessoa que foi promovida a general. Donde se segue, caso haja alguma verdade na lógica, que o general é a mesma pessoa que foi castigada na escola. Mas a consciência do general já não é tão boa ao ponto de lhe permitir lembrar‑se da sua punição; consequentemente, de acordo com a doutrina do Sr. Locke, ele não é a pessoa que foi castigada. Por conseguinte, o general é e não é, ao mesmo tempo, a mesma pessoa que foi punida na escola. [Reid, Ensaios sobre as Faculdades Intelectuais do Homem, III, 6].

 

De facto, o próprio Locke tinha perfeita consciência deste problema. E a sua resposta é simples:

 

“Mas, ainda que se faça tal objecção, suponhamos que eu perco totalmente a memória de algumas partes da minha vida ao ponto de ser impossível recuperá‑las e, talvez, de não poder voltar a ter consciência delas; não serei eu a mesma pessoa que praticou aquelas acções e teve aqueles pensamentos de que tive, em tempos, consciência, ainda que os tenha agora esquecido? Ao que respondo que deveremos ter em consideração aquilo a que a palavra eu se aplica e que, neste caso, é apenas ao homem. E, presumindo que o mesmo homem é a mesma pessoa, é fácil supor que eu refere aqui a mesma pessoa. Mas, se for possível que o mesmo homem tenha consciências distintas e incomunicáveis em momentos diferentes, sem dúvida que o mesmo homem pode, em momentos diferentes, constituir pessoas diferentes.” (Locke, Ensaio II XXVII)

 

Uma maneira de reconstruir o argumento de Locke é a seguinte: ou “a mesma pessoa” se identifica com “o mesmo ser humano” ou não. Se se identifica, todos concordaremos que estamos em presença do mesmo ser humano da infância à morte, independentemente das respectivas capacidades mentais. (…) A razão para defender que “a mesma pessoa” não se identifica com o “mesmo ser humano”, para Locke é a de concedermos que, se um homem tem consciências distintas e incomunicáveis, então temos pessoas diferentes que habitam, sucessivamente, o mesmo corpo (também poderíamos pensar nos problemas mentais da personalidade múltipla). Mas, nesse caso, é surpreendente, embora correcto, dizer‑se que o general senil não é o rapazinho traquina.

A razão de Locke em favor da sua perspectiva é, de certa maneira, aquilo que desagradava a Reid. Locke pensava que precisamos, antes de mais, de uma noção de “a mesma pessoa” ao longo do tempo, de modo a justificar as atribuições de responsabilidade. Pensava que a identidade pessoal era uma noção “forense”, ou seja, uma noção cujo lugar próprio é nos tribunais. Podemos ver o ponto fundamental da sua ideia ao considerar casos em que um vacilante octogenário é subitamente acusado de crimes, digamos, da guerra de há sessenta anos, quando era um ingénuo recruta adolescente. Será isto justo? Suponhamos que ele não se lembra, sinceramente, de quaisquer dos seus crimes. Então, para ele, é como se estivesse a ser condenado por actos realizados por uma pessoa completamente diferente. E isto parece injusto: se uma pessoa não tem consciência, então não pode “arrepender‑se” dos seus actos porque eles não fazem parte, pura e simplesmente, da sua autoconsciência. Não pode ter a consciência pesada.

Locke sabia, é claro, que não gerimos os nossos tribunais assim. A amnésia não é, afinal de contas, uma desculpa válida. Mas Locke pensava que isto reflecte as nossas suspeitas, já que é demasiado fácil alegar amnésia. Aos olhos de Deus, a verdadeira amnésia é realmente uma desculpa válida. Deus trataria o verdadeiro amnésico octogenário como uma pessoa diferente do antigo criminoso de guerra. Isto pode parecer atraente, mas não será assim tão bom no caso do crime cometido por causa de um súbito afluxo de sangue à cabeça, situação em que podemos dizer que não foi aqui nem ali que o agente se esqueceu do crime. Podemos querer distinguir graus de perda de memória.

E quanto à alegação de Reid de que a teoria de Locke contradiz a própria lógica, implicando uma contradição? Chama‑se a essa contradição “falha de transitividade” da identidade. A transitividade é a lei lógica segundo a qual se A = B e B = C, então A = C. Neste caso, aluno = oficial e oficial = general, mas para Locke não é verdade que aluno = general. É a isto que Reid chama uma contradição.

Isto parece sem dúvida estranho, mas talvez a estranheza provenha de se abstrair a “identidade” quando aquilo de que estamos a falar é saber se “é a mesma pessoa que”. Considere‑se novamente qualquer coisa composta, como uma bicicleta ou um barco. Suponhamos que a idade dos barcos importa, por exemplo, para a integração num escalão fiscal. Talvez os barcos antigos, com mais de cinquenta anos, sejam menos onerados nos impostos. Quando é que, então, podemos afirmar a antiguidade genuína num barco? (Neste momento, podemos imaginar Teseu e o industrioso que recolheu as peças originais tentando, ambos, reclamar a isenção fiscal). (…)

Podemos então reproduzir a estrutura (do argumento) de Reid: podemos facilmente verificar que, sob esta lei, Argos1 poderá ser o mesmo barco que Argos2 e Argos2 o mesmo barco que Argos3, mas Argos1 pode não ser o mesmo barco que Argos3. Mas a lei em si parece bastante sensata, um pouco como as leis que especificam o que algo tem de conter para considerarmos que é manteiga ou para considerarmos que foi alimentado a cereais. E sem dúvida que uma lei sensata não pode dar origem a uma contradição – ou pode?

Bom, os barcos são coisas compostas, feitas de partes, e pode ser isso que está na origem do problema. Assim, talvez o argumento de Reid de que é errado afirmar que A = B, B = C, mas não A = C, só faça sentido se cada A, B, C for simples, e não composto. Ora, como vimos, Reid sustentava que a alma é simples, mas Locke não, portanto talvez o argumento não seja aplicável contra este último.

(…)

(Para Hume) quando reflectimos sobre o conteúdo da nossa própria mente, descobrimos recordações individuais, pensamentos, paixões, experiências, mas nenhum eu. Hume pensava que, se não encontrássemos (e não pudéssemos encontrar) qualquer coisa na experiência, então não tínhamos o direito de falar disso. A nossa mente não podia abarcar ou mesmo “tocar” tal coisa. Assim, de forma consistente, defendeu que o eu não é mais do que um agregado das suas “percepções” ou experiências, juntamente com quaisquer ligações que existam entre elas.  Há conteúdo, mas nada para o conter. A isto chama‑se por vezes uma teoria da “não propriedade” do eu ou teoria do eu como feixe. Para Hume, como para Lichtenberg (…) “há pensamentos”. Mas não há um proprietário, detentor ou “eu” que pensa.

O problema desta ideia é exigir que tornemos compreensível a ideia de uma experiência sem proprietário. Mas objecta‑se que isto é incoerente. Esta ideia trata as experiências como “objectos” ou coisas autónomas: o tipo de coisas que poderiam flutuar por aí, sem dono, à espera de serem unidas num feixe com outras, como ramos caídos numa floresta. Mas, prossegue a objecção, isto é um erro, porque as experiências são parasitárias ou adjectivas das pessoas que as têm. O que quer isto dizer?

Pensemos numa amolgadela de um carro. Podemos falar de amolgadelas: esta é pior do que aquela ou a sua reparação será mais cara do que a da amolgadela que sofremos o ano passado. Mas é logicamente impossível que pudesse existir uma amolgadela “sem proprietário”, uma amolgadela sem uma superfície que é amolgada. As amolgadelas correspondem, por assim dizer, aos adjectivos. (…) Analogamente, um sorriso resulta de um rosto que sorri, que é a piada por detrás do gato de Cheshire de Lewis Carroll, que desapareceu deixando apenas o seu sorriso.

Portanto, a objecção a Hume é que as “experiências” são igualmente parasitárias em relação às pessoas. Não podemos imaginar a dor, por exemplo, como uma “coisa” vogando por aí à espera de ser apanhada num feixe de outras experiências, de modo a ser acidental que essa mesma dor se prenda a um outro feixe. No princípio há a pessoa e o aparecimento de uma dor é apenas o acontecimento em que uma parte (bit) da pessoa começa a doer, assim como o aparecimento de uma amolgadela é um pedaço (bit) de uma superfície que fica amolgada.

Kant defende esta ideia ao falar do “eu penso” que acompanha todas as minhas representações. Por outras palavras, as minhas experiências vêm assinaladas como “minhas”. Não me familiarizo primeiro com a experiência, procuro depois o proprietário e só então anuncio que a experiência é uma das minhas (desde que, contra Hume, esta última busca seja bem sucedida). Pelo contrário, quando sinto uma dor, isso é em si e por si ter consciência de que sou eu que tenho uma dor.

Mas como é isto possível se Hume tiver razão ao dizer que nós nunca temos consciência de um “eu”? Não é errado comparar dores com amolgadelas e é certamente verdade que, quando tenho consciência de uma amolgadela é só porque tenho consciência de uma superfície amolgada. Mas pelo menos temos consciência de superfícies, amolgadas ou não. Ao passo que, se Hume tiver razão, parece que não temos consciência da nossa alma ou eu.

Talvez a única maneira de avançar seja negar que o “eu” é o tipo de coisa de que podemos ter consciência. (…) O “eu” é o ponto de vista a partir do qual a interpretação começa. Não é mais uma coisa dada na experiência, pois nada dado na experiência poderia resolver o problema formal para o qual um “eu” é necessário. Mas é sempre necessário um ponto de vista: representar uma cena para si mesmo é, de uma forma ou outra, representar‑se a si mesmo tendo experiência dela. Devemos a linha de argumentação que acabei de apresentar a Immanuel Kant.

 

Simon Blackburn, Think, Oxford University Press, 1999, pp.130-140 (trad.port., Lisboa, Gradiva, 2001, pp.139‑148). 

 

RETORNAR