ANTÓNIO
DAMÁSIO E O SENTIMENTO DE SI
“Or the waterfall,
or music heard so deeply
That it is not heard at all,
but you are the music
While the music lasts. These
are only hints and guesses,
Hints followed by guesses;
and the rest
Is prayer,
observance, discipline, thought and action.
The hint half guessed, the
gift half understood, is Incarnation.”
T.S.Eliot, Four Quartets
1. O Si
“O leitor está a olhar para
esta página, a ler este texto e a elaborar o significado das minhas palavras à
medida que vai avançando na leitura. Porém, o que se passa na sua mente não se
limita de forma alguma ao que diz respeito ao texto e ao seu significado.
Paralelamente à representação das palavras impressas e à evocação de conceitos
necessária para compreender aquilo que escrevi, a sua mente revela também uma
outra coisa, algo que é suficiente para indicar, a cada instante, que é o
leitor e não outra pessoa quem está a ler e a compreender o texto. As imagens que
correspondem às suas percepções externas e às percepções daquilo que recorda
ocupam quase toda a extensão da sua mente, mas não ocupam a sua totalidade.
Para além destas imagens, existe igualmente uma outra presença que o significa
a si, enquanto espectador das coisas imaginadas, proprietário das coisas
imaginadas e actor potencial sobre as coisas imaginadas. (…) Se esta presença
não existisse, como poderia saber que os seus pensamentos lhe pertencem? Quem
poderia afirmá‑lo? Esta presença é calma e subtil e por vezes é pouco
mais do que uma alusão meio aludida e um dom meio compreendido (…). Nesta
perspectiva, a presença do si é o sentir daquilo que acontece quando o seu ser
é modificado pela acção de aprender alguma coisa. Essa presença tenaz nunca
desiste, desde o momento de acordar até ao do adormecer. Esta presença tem que
permanecer ou o seu eu não
permanecerá.” (António R. Damásio, O
Sentimento de Si. O Corpo, a emoção e a neurobiologia
da consciência, Lisboa, Europa-América, 2000
(1999), p.29).
2. A Consciência de Si e a
Consciência Autobiográfica de Si
“A consciência não é
monolítica, pelo menos nos seres humanos (…). A espécie mais simples, a que
chamo consciência nuclear, fornece ao
organismo um sentido do si num
momento – agora – e num lugar – aqui. O âmbito da
consciência nuclear é o aqui e o agora. (…) Por outro lado, a espécie mais
complexa de consciência, a que chamo consciência
alargada e da qual existem vários níveis e graus, fornece ao organismo um elaborado sentido de si – uma identidade
e uma pessoa, o leitor ou eu (…) Em resumo, a consciência nuclear é um fenómeno
biológico simples; possui um único nível de organização; é estável ao longo da
vida do organismo; não é exclusivamente humana; e não está dependente da
memória convencional, da memória de trabalho, do raciocínio e da linguagem. Por
outro lado, a consciência alargada é um fenómeno biológico complexo, possui
vários níveis de organização e evolui ao longo de toda a vida do organismo.
Embora acredite que a consciência alargada também se encontra presente de forma
elementar em alguns seres não humanos, ela só atinge o seu auge nos seres
humanos. A consciência alargada depende da memória convencional e da memória de
trabalho. Quando atinge o seu apogeu humano, é largamente reforçada pela
linguagem. (…) Como veremos, a consciência alargada não é uma variedade
independente da consciência, pelo contrário, é edificada sobre os alicerces da
consciência nuclear. O bisturi da doença neurológica revela que as alterações
da consciência alargada deixam incólume a consciência nuclear. (…) Com uma
frequência preocupante, a consciência é simplesmente explicada em termos de
outras funções cognitivas, tais como a linguagem, a memória, a razão, a atenção
e a memória de trabalho. Embora estas funções sejam realmente necessárias para
que os níveis superiores de consciência alargada operem normalmente, o estudo
de doentes neurológicos sugere que não são necessárias para a consciência
nuclear.” (pp.35‑37).
3. Persona e Identidade de Si
“Podemos ser Hamlet durante uma semana ou Falstaff
por uma noite, mas tendemos a regressar ao ponto de partida. Se tivermos o
génio de Shakespeare, podemos utilizar as batalhas interiores do si para criar
o elenco inteiro de personagens do teatro ocidental – ou no caso de Fernando
Pessoa, para criar vários poetas diferentes, os seus heterónimos. Porém, ao fim
e ao cabo, é um Shakespeare idêntico a si mesmo (e não um dos seus personagens)
que se reforma tranquilamente em Stradford, e é um
Pessoa idêntico a si mesmo (e não Ricardo Reis) que bebe até ao esquecimento e
morre num hospital de Lisboa.” (p.260)
4. A Consciência de Si e a
Memória
“A consciência nuclear não
se baseia na memória convencional, nem na memória de trabalho que são, no
entanto, necessárias para a consciência alargada. Em termos de memória, a
consciência nuclear apenas requer uma brevíssima memória de curto prazo. Não
precisamos de ter acesso a memórias do passado para ter consciência nuclear,
embora o material autobiográfico contribua para os níveis avançados da
consciência alargada. (…) Para ilustrar a minha tese vou falar (…) do meu
doente, o doente mais profundamente amnésico até hoje documentado e que o nosso
laboratório estuda há mais de vinte anos. (…)
O meu amigo David acaba de
chegar. Cumprimento‑o com um abraço e um sorriso e ele devolve‑me o
cumprimento. Estou encantado de o ver e ele está encantado de me ver. É tudo
tão natural que nem me consigo lembrar de quem sorriu primeiro ou de quem
primeiro falou. Não é importante. Tanto o David como eu estamos contentes por
estar aqui. Sentamo‑nos e começamos a conversar, como é costume entre
velhos amigos. Ofereço-lhe café e sirvo‑me também. Se o leitor estivesse
a observar‑nos do outro lado, não teria visto nada que merecesse
comentário especial.
Mas esta cena está prestes a
mudar quando me viro para o David e lhe pergunto quem sou. Imperturbável,
responde-me que sou o seu amigo. Imperturbável, respondo‑lhe: «Claro. Mas
quem sou eu na realidade, qual é o meu nome?”
“Bem, não sei. Neste momento
não consigo lembrar‑me. Não consigo mesmo.”
«Mas, David, por favor,
tenta lembrar‑te do meu nome”
Nessa altura o David
responde: «És o meu primo George.” (…)
Apesar das aparências
indicarem o contrário, o David não sabe de todo quem eu sou. Não sabe o que
faço, não sabe se já alguma vez me viu, não sabe qual foi a última vez que me viu
e não sabe o meu nome. Nem sequer sabe o nome da cidade em que vive, o nome da
rua ou o número do prédio. Também não sabe que horas são, embora quando eu lhe
pergunto as horas ele olhe para o seu relógio e me responda, correctamente, três menos um quarto. Quando lhe
pergunto a data, volta a olhar para o relógio e responde, mais uma vez
correctamente, que estamos a «seis». «Muito bem David, muito bem, mas por
favor, diz‑me seis de que mês?» Mas como o seu relógio indica o dia, e
não o mês, responde lançando um olhar inquieto à sua volta e um relance para os
cortinados bem fechados das janelas. «Bem, Fevereiro ou Março, acho eu, tem
feito muito frio»; e, sem se atrapalhar, levanta‑se no meio da última
frase, dirige‑se à janela e abrindo as cortinas exclama: «Oh, não, Deus
do céu! Deve ser Junho ou Julho. Está mesmo Verão.». (…)
O meu velho amigo David tem
uma das mais profundas alterações de memória jamais registadas num ser humano.
A memória de David tinha sido completamente normal até ao dia em que foi atingido
por uma grave encefalite. No caso de David, esta doença infecciosa do tecido
cerebral foi causada por um vírus, o vírus herpes simplex,
tipo I. A maior parte de nós é portador deste vírus, mas apenas um pequeno
número de nós jamais virá a ter uma encefalite provocada por ele. (…) Uma vez
terminada a doença, verificou‑se que o David tinha perdido a capacidade
de aprender qualquer facto novo. Quer encontrasse uma nova pessoa ou uma
paisagem nova, quer assistisse a um novo acontecimento ou lhe fosse dada uma
palavra nova para decorar, David não conseguia reter na sua memória nenhum
aspecto da nova informação. A sua memória estava limitada a um período de tempo
inferior a um minuto. Durante esse curso período a sua memória para factos era
normal. Se me apresentasse, saísse da sala e regressasse, num período, digamos
de vinte segundos, e lhe perguntasse quem era, diria prontamente o meu nome e
confirmaria que sim, que tinha acabado de me conhecer, que eu tinha saído e que
agora regressara. Mas se eu voltasse três minutos mais tarde, o David não faria
a mínima ideia de quem eu era. E se insistisse com ele para que «adivinhasse» a
minha entidade, então tornar‑me‑ia alguém, quem sabe, talvez o primo George McKenzie.(…)
A perturbação de memória do David é (..) extensa (…)
porque não só é incapaz de aprender factos novos como também é incapaz de
recordar muito factos antigos. Está-lhe inteiramente vedada a capacidade de
recordar o que quer que possua uma natureza singular, quer seja uma pessoa, um
objecto ou um acontecimento. A sua perda de memória recua praticamente até ao
berço. Existem poucas excepções a este panorama calamitoso. O David sabe o seu
nome, o nome da sua mulher e o nome dos filhos e parentes próximos, mas não se
lembra da aparência física de nenhum deles, nem do som das suas vozes.
Consequentemente, não consegue reconhecê-los em fotografias, antigas ou
recentes, ou mesmo em pessoa. (…) Tão profundo é o problema que é difícil
imaginar o que poderá ser a mente de uma pessoa de tal modo diminuída. Será que
o David é um zombie, o tipo de indivíduo criado por
alguns filósofos para os seus “thought experiments” (…)? Ou voltando ao tema que nos ocupa: será
que o David continua a ter consciência?
No que respeita à
consciência nuclear o desempenho do David é exemplar. Para começar, o David
está vígil. Como dizem os neurologistas, está «acordado e alerta» (…). A
propósito, nós sabemos que os ritmos circadianos são
normais, que dorme normalmente e que a parte do tempo de sono que passa em sono
REM (o período de movimentos oculares rápidos, durante o qual ocorrem os
sonhos) é aquela que se espera. Também não há dúvida que o David se comporta
atentamente em relação aos estímulos que apresentamos. (…)
O si
de David está bem presente. No interior da abertura da sua memória de curto
prazo – cerca de 45 segundos – existe tempo suficiente para gerar consciência
nuclear acerca de um grande número de coisas. As imagens que o David forma nas
várias modalidades sensoriais – visão, audição, tacto – são formadas na
perspectiva do seu organismo. É óbvio que ele trata essas imagens como suas e
não como sendo de outrem. É facilmente observável que ele actua baseando‑se
nessas imagens e que as suas intenções estão intimamente ligadas ao conteúdo
das imagens. Em conclusão, o David não é um zombie.
Em termos de consciência nuclear, ele é tão consciente como a do leitor ou eu. (…)
Tudo indica que ele tem um sentido do si normal, no aqui e agora, mas que a sua
memória autobiográfica está reduzida a um esqueleto e, consequentemente, o si
autobiográfico está gravemente empobrecido.” (139‑145).
5. A Imagem e a Consciência
de Si
“Devo ser eu porque eu estou
aqui”. Foi isto que a Emily disse, cautelosa e
vagarosamente, ao contemplar o rosto que estava no espelho à sua frente. Tinha
que ser ela; tinha‑se colocado em frente ao espelho, por sua livre
vontade, por isso tinha que ser dela a imagem do espelho, de quem mais poderia
ser? Todavia, a Emily não era capaz de reconhecer o
seu rosto no espelho, estava certa de que era uma cara de mulher, mas de quem
não fazia ideia. Não parecia que fosse a dela, mas também não podia dizer que
não fosse, uma vez que não conseguia visualizar a sua face na mente, mesmo que
insistisse em recordá-la da memória. (…) A situação mostrava‑lhe de forma
inequívoca que não podia ser outra pessoa senão ela, e foi isso que aceitou a
minha afirmação de que era ela sem qualquer dúvida. (…) Não era capaz de
reconhecer o rosto do marido, o dos filhos ou de outros familiares, amigos e
conhecidos. (…).
E quantos
valores teve a Emily na minha classificação da
consciência nuclear? Vinte. Não preciso de vos dizer que a Emily
está vígil e atenta sob todos os pontos de vista. A sua atenção concentra‑se
facilmente e pode ser mantida em toda a espécie de tarefas. As emoções e os
sentimentos que refere também são inteiramente normais. O seu comportamento é
intencional e adequado em todos os contextos, imediatos ou a longo prazo, e é
apenas limitada pelas suas dificuldades visuais. De facto, apesar de todas essas
dificuldades, consegue realizar admiráveis façanhas intelectuais. Permanece
horas a fio a observar a mancha e os trejeitos das pessoas e a tentar adivinhar
quem são, sendo muitas vezes bem sucedida; consegue fazer conversa social
quando recebe os seus convidados, desde que o marido lhe sussurre o nome das
pessoas que se aproximam. (…) Gostava de chamar a atenção para um pormenor
muito revelador: a Emily não está só consciente
daquilo que conhece na perfeição, como também está consciente daquilo que não
conhece. Gera consciência nuclear para cada objecto com que se depara,
independentemente de conhecer ou não esse objecto. (…)
Quando um doente com agnosia facial falha o reconhecimento de um rosto familiar
com o qual é confrontado, afirmando que nunca viu essa pessoa e que não recorda
de nada relacionado com ela, não evoca memórias específicas sobre a pessoa, mas
a consciência nuclear mantém‑se intacta. (…) O problema não tem de todo a
ver com a consciência, mas sim com a memória. A consciência nuclear encontra‑se
presente, porque está a ser gerada por outros níveis da‑coisa‑que‑está‑para‑ser‑conhecida;
por exemplo, o rosto enquanto rosto. É precisamente porque a consciência
nuclear normal se encontra presente que o vazio da recordação acaba por ser
incorporado na mente.”(pp.193‑196).
6. A Linguagem e a
Consciência de Si
"Nos tempos em que
estudava medicina e neurologia, lembro‑me de perguntar a algumas das
pessoas mais sábias que me rodeavam como é que produzíamos a mente consciente.
Curiosamente, a resposta era sempre a mesma: o segredo está na linguagem.
Diziam‑me que as criaturas sem linguagem estavam limitadas à sua
ignorante existência, ao contrário de nós, felizardos humanos, a quem a
linguagem permitia conhecer. A consciência era uma interpretação verbal dos
processos mentais em curso. A linguagem providenciava o afastamento necessário
para podermos olhar para as coisas com a distância necessárias. Esta resposta
pareceu‑me sempre muito simples, simples demais para explicar um fenómeno
que eu imaginava na altura impossível de explicar dada a sua complexidade. E a
resposta não só era simples, mas também improvável, dado o que me era dado ver
sempre que visitava o Jardim Zoológico. Nunca acreditei na resposta e agrada‑me
muito nunca ter acreditado.
A linguagem, com as suas
palavras e frases, é tradução de uma outra coisa, é uma conversão de imagens
não linguísticas que representam entidades, eventos, relações e inferências. Se
a linguagem funciona em relação ao si e à consciência do mesmo modo que
funciona para todas as outras coisas, ou seja, simbolizando em palavras e
frases aquilo que começa por existir de uma forma não verbal, então deverá
existir um si não verbal e um conhecimento não verbal para os quais as palavras
“eu” e “mim” ou a frase “eu conheço” constituem as
traduções apropriadas, em qualquer linguagem. Julgo que é inteiramente legítimo
pegar na frase “eu sei” e deduzir, a partir dela, a
presença de uma imagem não verbal de conhecimento centrada num si que procede e
motiva essa frase não verbal. A ideia de que o si e a consciência deveriam emergir após a linguagem e de que seriam uma construção directa da
linguagem não parece ser correcta. A linguagem não nasce do nada. (…) A medida
que estudava, caso após caso, doentes com graves alterações de linguagem
causadas pelas doenças neurológicas, apercebi‑me de que,
independentemente do grau de defeito da linguagem que apresentavam, os
processos de pensamento dos doentes se mantinham essencialmente intactos e,
mais importante ainda, a consciência que os doentes tinham da sua situação não
parecia diferir em nada da minha. A contribuição da linguagem para a mente era admirável,
sem qualquer dúvida, mas a sua contribuição para a consciência nuclear era
nenhuma.
Em todos os casos que tenho
estudado, os doentes com importantes perturbações da linguagem permanecem vigis e atentos e demonstram facilmente a finalidade dos
seus comportamentos. Mais ainda, são perfeitamente capazes de indicar que estão
a observar um determinado objecto, a detectar o humor ou a tragédia duma
determinada situação ou a imaginar qual o resultado que o observador antecipa.
Esta indicação pode ser feita através duma linguagem empobrecida dum gesto da
mão, dum movimento do corpo ou duma expressão facial, mas está sempre acessível
e sem demora. Não menos importante é o facto de que a emoção está profundamente
presente, sob a forma de emoções de fundo, primárias e secundárias, intimamente
relacionadas com os acontecimentos em curso (…) A melhor demonstração do que
acabo de descrever ocorre em pessoas com aquilo a que chamamos afasia global.
Trata-se de uma perturbação de todas
as faculdades da linguagem. Os doentes são incapazes de compreender a
linguagem, auditiva ou visualmente. Quando se fala com eles não compreendem o
que dizemos e não conseguem ler uma única letra ou palavra; não são capazes de
falar (…) Não há qualquer prova de que, nas suas mentes vigis
e atentas, se estejam a formar quaisquer palavras. Pelo contrário, o seu
processo de pensamento parece não usar palavras.
Todavia, enquanto manter uma
conversa normal com afásicos globais está fora de
questão, é possível comunicar com
eles, duma forma rica e humana, se tivermos a paciência de nos adaptarmos ao
vocabulário limitado e improvisado de sinais não linguísticos que estes doentes
inventam e usam. (…) Em termos de consciência nuclear, estas pessoas em nada
diferem de mim ou do leitor, apesar da incapacidade de traduzirem o pensamento
em linguagem e vice‑versa. (…)
A viabilidade deste cenário
pode ser testada directamente através do estudo de doentes que foram submetidos
a excisões radicais de todo o hemisfério esquerdo para o tratamento de certos
tumores cerebrais. Este tipo de operação, que felizmente caiu em desuso, foi
praticado como último recurso para ajudar a situação de doentes com tumores
cerebrais malignos e rapidamente fatais. (…) Tal como seria de esperar, as hemisferectomias cerebrais esquerdas forma devastadoras do
ponto de vista da linguagem, resultando numa gravíssima afasia global. (…)
Posso assegurar‑vos que ninguém jamais pôs em causa a integridade da
consciência de Earl e que ninguém com bom juízo
clínico o faria nos dias de hoje. (…) O Earl não só
estava vígil e atento, como também produzia um comportamento apropriado à
desgraçada situação que lhe tinha cabido em sorte. Não se limitava a produzir
reflexos não pensados e não conscientes. Tentava
com grande esforço responder às questões que lhe eram colocadas, algumas vezes
através de gestos. (…) A gratidão dos seres humanos para com a linguagem não
requer de todo que a linguagem esteja na origem da consciência.” (pp.133‑138).
7. O Pensamento Racional e a
Consciência de Si
“A consciência nuclear
realça e sublinha a atenção e a memória de trabalho; favorece o estabelecimento
de memórias; é indispensável ao funcionamento normal da linguagem; e aumenta o
alcance das manipulações inteligentes a que chamamos planeamento, resolução de
problemas e criatividade.
Em conclusão, os indivíduos
como nós dotados de memória abundante e inteligência, conseguem manipular
factos, logicamente, com ou sem a ajuda da linguagem e produzir inferências a
partir desses factos. Proponho que a consciência nuclear é distinta das
inferências que podemos estabelecer em relação aos conteúdos dessa mesma
consciência. Podemos inferir que os pensamentos da nossa mente são criados na
nossa perspectiva individual: são pertença nossa; que podemos agir sobre eles;
que o protagonista aparente da relação com o objecto é o nosso organismo.
Todavia, na minha opinião, a consciência nuclear começa antes destas
inferências: a consciência nuclear
constitui ela própria o conhecimento, directo e sem qualquer verniz inferencial
do nosso organismo individual no acto de conhecer.
Todas as propriedades
cognitivas acima referidas foram potenciadas pela consciência nuclear e
ajudaram, por sua vez, a construir a consciência alargada a partir da
consciência nuclear. No entanto, o cordão umbilical que une as duas espécies de
consciência nunca foi cortado. Dentro da consciência alargada, em cada um de
nós e em qualquer momento, encontra‑se a pulsação da consciência
nuclear.” (p.152).
8. A Experiência do Corpo e
a Consciência de Si
“A anosognosia constitui (…)
exemplo de alteração da consciência alargada, sem alteração da consciência
nuclear. A palavra anosognosia deriva
do grego nosos,
«doença» e de gnosis,
«conhecimento», e traduz a incapacidade de reconhecer um estado de doença no
nosso próprio organismo. (…) Na neurologia não escasseiam os casos bizarros,
mas a anosognosia é por certo um dos mais estranhos. O exemplo clássico da
anosognosia é o de uma vítima de acidente vascular cerebral, completamente
paralisada do lado esquerdo do corpo, incapaz de movimentar a mão e o braço, a
perna e o pé, metade do roto imobilizado, incapaz de se manter de pé ou de
andar, mas que ignora o problema e declara que nada de especial se passa.
Quando se pergunta a um doente com anosognosia como se sente, o doente responde
com um sincero «Sinto‑me bem». (…) Sempre houve e ainda há quem pense que
esta negação da doença é motivada psicodinamicamente e que consiste apenas numa
adaptação ao grave problema que o doente enfrenta, influenciada pela história
desse indivíduo relativa a situações incomparáveis. Mas é fácil provar que tal
explicação não é correcta quando pensamos na imagem espelho desta situação, a
de um doente cujo lado paralisado do corpo seja o direito em vez do esquerdo.
Tais doentes não sofrem de anosognosia. Podem estar gravemente paralisados e
até gravemente afásicos, mas permanecem cientes da
sua tragédia. (…) A minha doente DJ tinha uma paralisia completa do lado
esquerdo mas sempre que lhe perguntava como estava o seu braço esquerdo,
começava a dizer que estava óptimo, que tinha tido alguns problemas, mas que
agora estava perfeito. Quando lhe pedia para movimentar o braço esquerdo à sua
volta para o procurar e, confrontado com o membro inerte, perguntava‑me
se eu queria «realmente» que «ele» – o braço – se mexesse. Só então, e à custa
da minha insistência, DJ reconhecia que «sozinho, não parece mexer‑se
assim muito bem», altura em que, invariavelmente, usava a mão direita para
pegar no braço paralisado e verificava o que era óbvio: «Consigo mexê‑lo
com a minha mão direita.»
É surpreendente que o doente
anosognósico seja incapaz de se aperceber da
paralisia – automática, rápida e internamente –, mas é ainda mais surpreendente
que não seja capaz de aprender que
tem uma paralisia, mesmo após ter sido repetidamente confrontada com ela.
Alguns doentes, depois de lhes ter sido dito que têm uma paralisia, usam essa
informação obtida do «exterior» para dizer que costumavam ter uma paralisia, embora, é claro, a paralisia continue
inalterada.” (pp.244-245)
9. A Emoção e a Consciência
de Si
“Há alguns anos atrás, a
brilhante pianista Maria João Pires contou‑nos a seguinte história:
quando toca, através do controlo total da sua vontade, consegue reduzir ou
permitir a passagem do fluxo de emoção para o seu corpo. A minha mulher, Hannah, e eu pensámos que se tratava penas de uma
maravilhosa ideia romântica, mas apesar de a Maria João insistir que conseguia
fazê-lo, nós permanecíamos incrédulos. Finalmente, resolvemos pôr a ideia à
prova científica. Numa das suas visitas ao nosso laboratório, Maria João foi
ligada por fios ao complicado equipamento psicofisiológico, enquanto escutava
curtas peças musicais seleccionadas por nós em duas situações: uma de emoção
natural «autorizada», outra de «emoção» voluntariamente «inibida». Os seus Nocturnos de Chopin
tinham acabado de ser publicados e usámos alguns deles e outros tocados por
Daniel Barenboim como estímulo. Na situação de «emoção
autorizada», o registo de contundência da pele mostrou montes e vales,
intimamente ligados ao perfil emocional destas peças. Seguidamente, na situação
de «emoção reduzida» aconteceu, de facto, o impensável. A Maria João conseguia
literalmente aplanar o seu gráfico de condutância da pele, de acordo com a sua
vontade e conseguia até modificar o seu ritmo cardíaco. Sob o ponto de vista
comportamental também se transformou. As emoções de fundo estavam reorganizados
e alguns dos comportamentos especificamente emotivos eliminados, registando‑se
uma diminuição do movimento da cabeça e da face. Quando o nosso colega Antoine Bechara, totalmente
incrédulo, quis repetir toda a experiência, pensando que os resultados poderiam
ser devidos a um artefacto de habituação, a Maria João repetiu tudo. Afinal,
podemos encontrar certas excepções, sobretudo entre aqueles cuja vida consiste
em criar magia através da emoção.” (pp.70‑71).
10. A Narrativa não verbal
da Consciência de Si
“Narrativa e história estão
de tal forma ligadas à linguagem que devo insistir (…) que não sejam
interpretadas em termos de palavras. Por narrativa ou história quero significar
a criação de um mapa não linguístico de acontecimentos logicamente ligados.
Será melhor pensar em termos de filme (embora este meio de comunicação também
não nos dêuma ideia perfeita) ou de pantomima (…). No
caso dos seres humanos, a narrativa não verbal (…) pode ser convertida
imediatamente em linguagem, é evidente. (…) A narrativa do estado do proto‑si a ser modificado pela interacção com um
objecto deve ocorrer, em primeiro lugar, na sua forma não linguística de modo a
que seja possível a sua tradução ulterior em palavras. Na frase «Eu vejo um
carro aproximar‑se», a palavra vejo
significa um certo acto de pertença perceptual, perpretada pelo meu organismo e envolvendo o meu si. (…)
Contar histórias sem palavras é a mais natural das coisas. (…) A ocorrência
espontânea e pré‑verbal da narração de histórias pode muito bem ter sido
a razão por que inventámos o teatro, os livros, e por que uma grande parte da
humanidade passa uma grande parte da vida activa em salas de cinema e defronte
de ecrãs de televisão. Os filmes constituem a representação externa mais
semelhante ao atarefado contar de histórias que acontecem sem descanso nas
nossas mentes.” (pp.217‑220).
“Narra uma história, a história do organismo surpreendido no acto
de representar o seu próprio estado de mudança enquanto prossegue coma
representação de um objecto. Porém, o mais surpreendente é que a entidade
conhecedora do surpreender só é criada ao longo da narração do processo de
surpreender.” (p.202)
11. A privacidade dos
estados mentais
“As imagens (padrões
mentais) podem ser conscientes ou não conscientes (…). As imagens não
conscientes nunca são acessíveis directamente. Só temos acesso às imagens
conscientes na perspectiva da primeira
pessoa (as minhas imagens, as suas imagens). Por outro lado, só temos
acesso aos padrões neurais na perspectiva
da terceira pessoa. Ainda que eu tivesse a possibilidade de observar os meus
próprios padrões neurais com a ajuda de uma tecnologia de ponta, estaria sempre
a observá‑los na perspectiva da terceira pessoa.” (p.362).
“Para nós cientistas, é
costume lamentar o facto de que a consciência é um fenómeno de carácter pessoal
e privado, não acessível às observações de terceiras pessoas que são tão comuns
na física e em outros ramos das ciências da vida. Todavia, é necessário aceitar
o facto de que é esta a situação, e devemos tirar partir dela. Acima de tudo
não devemos cair na armadilha de tentar estudar a consciência exclusivamente do
ponto de vista externo, receosos de que o ponto de vista interno esteja
irremediavelmente viciado. O estudo da consciência requer tanto a perspectiva
interna como a externa.” (p.105).