IDENTIDADE E IDENTIDADE PESSOAL: FERRET E RICOEUR

 

 

 

A SÍNDROMA DA TORRE EIFFEL

 

I

 

"Imaginemos que, num belo dia, os lisboetas decidem construir na Praça dos Restauradores uma torre que se assemelha traço por traço com a torre Eiffel. Para realizar este projecto ambicioso, decide‑se reencontrar os planos originais de Gustave Eiffel e de produzir a partir deles uma torre com a mesma escala, como o mesmo número e o mesmo género de traves de ferro, dispostas umas em relação às outras do mesmo modo do que acontece na torre Eiffel. Para levar a semelhança o mais longe possível, decide‑se fabricar traves de ferro segundo as técnicas, os procedimentos e os métodos em uso em 1889 [...]. Encontramos, assim, duas torres Eiffel, a de Paris e a de Lisboa e, até aí, o risco de confusão é relativamente limitado: estas duas torres são simultaneamente numericamente diferentes e qualitativamente idênticas. Imaginemos agora que durante uma violenta tempestade a torre Eiffel de Paris desaba. [...] Imaginemos, em seguida, que os lisboetas oferecem por sua vez a sua torre Eiffel aos parisienses para os consolar desta perda. Decide-se assim deslocar a torre Eiffel lisboeta da Praça dos Restauradores ao Champ‑de‑Mars, na localização exacta da antiga torre Eiffel. E é aqui que o risco de confusão aparece. Na medida em que só subsiste uma única torre Eiffel, a ilusão de óptica pode iniciar‑se e corre‑se o risco de considerar esta torre Eiffel como a torre Eiffel, ou dito de outra forma de tomar a réplica pelo original [...]. Da mesma forma que ao folhearmos um livro sobre Piero della Francesca acreditamos estar a admirar a sua obra autêntica, os turistas em Paris acabariam por considerar que eles visitam a torre Eiffel embora não se tratando dela. É importante não esquecer este ponto, pois numerosas teorias sobre a identidade pessoal sofrem precisamente do que se poderia chamar a síndroma da torre Eiffel, isto é, desta passagem intempestiva e como insensível da identidade qualitati­va à identidade numérica." (S.Ferret, Le Philosophe et son scalpel. Le Problème de l’identité personnelle, Paris, Minuit, 1993, pp.14‑15).

 

II

 

IDENTIDADE BIOGRÁFICA E IDENTIDADE PESSOAL

 

 

“Considere‑se uma pessoa qualquer, por exemplo, Jorge Sampaio, e pergunte‑se até que ponto essa pessoa poderia ser diferente daquilo que ela é. Para alguns, adeptos de um essencialismo integral, esta questão não tem sentido: Jorge Sampaio coincide ontologicamente com a sua biografia, no sentido muito amplo que se pode dar a este termo. Nestas condições, toda a mudança na vida de Jorge Sampaio, mesmo a mais elementar como lavar os dentes, em tal dia e em tal hora, com tal dentífrico, é‑lhe por natureza essencial. Para outros, os anti-essencialistas convencidos, nenhuma outra propriedade que não seja a identidade de si a si não é essencial. A partir daqui, a cisão ontológica está aberta e pode‑se compreender mundos possíveis nos quais não apenas Jorge Sampaio não é nem socialista nem Presidente da República, mas, de forma mais radical e, num certo sentido, espectacular, é um helicóptero, uma joaninha (coccinelle) ou uma bola de neve. (…)

A eventualidade de biografias alternativas e paralelas é fonte de perplexidade habitual ao não‑metafísico. Trata‑se de perguntar até que ponto eu poderia “ser” outro (biografia alternativa) e até que ponto um outro poderia “ser” eu (biografia paralela) (…) Por um lado, o percurso de uma existência pessoal poderia ser bastante diferente daquele que teve, no sentido de que uma pessoa, permanecendo uma e a mesma, teria podido efectuar um certo número de coisas que não efectuou, nem mesmo considerou efectuar.  Por outro lado, uma pessoa poderia apresentar (em princípio) a biografia de uma outra pessoa no sentido de que ela poderia ter efectuado, praticamente tudo (à peu des choses près), tudo o que esta segunda pessoa efectuou precisamente. Se associarmos estas duas possibilidades, poder-se-ia chegar à conclusão insólita que eu poderia (num certo sentido) «ser» um outro e um outro poderia «ser» eu. Estas notas conduzem mais ou menos inevitavelmente a pensar que uma pessoa não coincide, metafisicamente falando, com o que, socialmente falando, se costuma definir as pessoas, a saber, a biografia.

Aplicada a uma personagem histórica qualquer, esta maneira de ver as coisas conduz a sustentar que nada do que é dito num dicionário ou numa enciclopédia sobre a personagem em questão lhe é essencial. Continuando a ser o mesmo homem, Napoleão poderia ter vencido em Waterloo. Mais ainda, poderia nunca ter empreendido carreira militar, mas ter passado a sua vida na Córsega calmamente como merceeiro, médico ou músico. Poderia mesmo ter falecido com escarlatina com três anos. Inversamente, uma outra pessoa poderia ter empreendido e realizado precisamente a carreira de Napoleão sem restrição – tornar‑se tenente de artilharia, chefe de batalhão, general de brigada, primeiro cônsul, imperador, ter vencido em Austerlitz e vencido em Waterloo, casar com Josefina e depois com Marie‑Louise, descobrir‑se exilado em Santa‑Helena e aí morrer, etc. –, sem ser contudo Napoleão.

Não se deve retirar destas observações a tese radical que consiste em sustentar que nada numa pessoa lhe é essencial: o que é dito de uma pessoa num dicionário é uma coisa, o que ela é metafisicamente é uma outra.” (S.Ferret, Le Philosophe et son scalpel. Le Problème de l’identité personnelle, Paris, Minuit, 1993, pp.14‑15)pp.16‑26)

 

 

II

 

A IPSEIDADE E A IDENTIDADE NARRATIVA

 

 

“Não se tornam as vidas humanas mais legíveis quando são interpretadas em função das histórias que as pessoas contam a seu respeito? E estas «histórias da vida» não se tornam elas, por sua vez, mais inteligíveis, quando lhes são aplicadas modelos narrativos – as intrigas – extraídas da história e da ficção (drama ou romance)? O estatuto epistemológico da autobiografia parece confirmar esta intuição. Parece, pois, plausível ter como válida a cadeia seguinte de asserções: o conhecimento de si próprio é uma interpretação, – a interpretação de si próprio, por sua vez, encontra na narrativa, entre outros signos e símbolos, uma mediação privilegiada, – esta última serve‑se tanto da história como da ficção, fazendo da história de uma vida uma história fictícia ou, se se preferir, uma ficção histórica, comparáveis às biografias dos grandes homens em que se mistura a história e a ficção.

Mas o que faltava a esta apreensão intuitiva do problema da identidade pessoal era uma clara compreensão do que está em jogo na própria questão da identidade aplicada a pessoas ou a comunidades. (…) Adquiri agora a convicção de que uma defesa mais forte e mais convincente pode ser proposta a favor da identidade narrativa, se for possível mostrar que esta noção e a experiência que ela designa contribuem para a resolução das dificuldades relativas à noção de identidade pessoal, tal como ela é actualmente discutida em largos círculos filosóficos, em particular na filosofia analítica de língua inglesa.

O quadro conceptual que proponho submeter à prova de análise repousa sobre a diferença fundamental que faço entre dois usos principais do conceito de identidade: a identidade como mesmidade (latim idem, inglês same, alemão gleich) e a identidade como si-próprio [soi] (latim ipse, inglês self, alemão selbst). A ipseidade não é a mesmidade. A minha tese é que muitas dificuldades que obscurecem a questão da identidade pessoal resultam da falta de distinção entre os dois usos do termo identidade. Iremos ver que a confusão não é sem razão, na medida em que as duas problemáticas se recobrem num certo ponto. A determinação desta zona de recobrimento será, a este respeito, da maior importância.

Partamos pois da ideia de identidade como mesmidade (idem). Várias relações são operadas a este nível. Em primeiro lugar, a identidade em sentido numérico; assim, dizemos que duas ocorrências de uma coisa designada por um nome invariável não constituem duas coisas diferentes mas uma só e mesma coisa; a identidade, aqui, significa unicidade; o seu contrário é a pluralidade: não uma, mas duas ou várias; este primeiro sentido do termo corresponde à identificação compreendida como reidentificação do mesmo. Vem, em segundo lugar, a ideia de semelhança extrema: X e Y trazem o mesmo fato, isto é, fatos de tal forma semelhantes que são substituíveis um pelo outro. O contrário é aqui o diferente. Estas duas primeiras ideias não são exteriores uma à outra. Em certos casos, a segunda serve de critério indirecto para a primeira, quando a reidentificação do mesmo é objecto de dúvida e de contestação; então, esforça‑se para mostrar que marcas materiais (fotos, sinais, etc.) ou, em casos mais problemáticos, as lembranças de uma mesma testemunha, ou os testemunhos concordantes de várias testemunhas, apresentam uma tão grande semelhança, por exemplo, entre um acusado agora presente em tribunal e o autor presumível de um crime antigo, que o homem hoje presente e o autor do crime são uma só e a mesma pessoa. Os processos de criminosos de guerra dão a ocasião a tais confrontações. Conhece‑se as contingências. E é precisamente a fraqueza do critério de similitude no caso de uma grande distância no tempo que sugere uma outra noção, que é ao mesmo tempo um outro critério de identidade, a saber a continuidade ininterrupta no desenvolvimento de um ser entre o primeiro e o último estado da sua evolução. Assim, dizemos de um carvalho que ele é o mesmo da semente à árvore na força da idade; da mesma forma, de um animal, do nascimento à morte, e mesmo do homem enquanto amostra da espécie, do feto ao velho; a demonstração desta continuidade funciona como critério anexo do da similitude ao serviço da identidade numérica. O contrário da identidade tomada neste terceiro sentido é a descontinuidade. Ora, com este terceiro sentido, entrou em linha de conta a mudança no tempo.

É em função deste fenómeno essencial que entra em cena o quarto sentido da identidade‑mesmidade, a saber, a permanência no tempo. É com este sentido que começam os verdadeiros embaraços, na medida em que é difícil não relacionar esta permanência a qualquer substrato imutável, a uma substância, como fez Aristóteles, e como Kant o confirma a seu modo, deslocando do plano ontológico para o plano transcendental, o das categorias do entendimento, a primazia da substância sobre os acidentes: «Todos os fenómenos contêm algo de permanente (substância) considerada como o próprio objecto e algo de mutável, considerado como uma simples determinação deste objecto, isto é, de um modo de existência do objecto» (A 182, B 224). Reconheceu‑se aí a primeira Analogia da experiência que corresponde na ordem dos princípios, isto é, dos primeiros juízos, à primeira categoria da relação que se chama precisamente substância e cujo esquema é «a permanência do real no tempo, isto é, a representação deste real como um substrato da determinação empírica do tempo em geral, substrato que permanece enquanto tudo o resto muda» (A 143, B 183). É exactamente esta quarta determinação que coloca problemas na medida em que a ipseidade, o si-próprio, parece cobrir o mesmo espaço de sentido. Ora, esta quarta determinação é irredutível às precedentes, como o verifica a diferença dos contrários; contrário da identidade numérica é a pluralidade; o contrário da identidade‑permanência é a diversidade. A razão desta descontinuidade na determinação do idêntico é que a identidade‑unicidade não implica tematicamente o tempo, o que só é o caso com a identidade‑permanência. Ora, é ela que temos presente no espírito quando afirmamos a identidade de uma coisa, de uma planta, de um animal, de um ser humano (não ainda considerado como pessoa não substituível).

Como é que a noção de si-próprio, de ipseidade, se cruza com a de mesmidade? O ponto de partida do desenvolvimento da noção de ipseidade deve‑se procurar na natureza da questão à qual o si-próprio constitui uma resposta, ou um leque de respostas. Esta questão é a questão quem, distinta da questão o quê. É a questão que colocamos de preferência no domínio da acção: procurando o agente, o autor da acção, perguntamos: quem fez isto ou aquilo? Chamamos adscrição [ascription] o assinalar de um agente a uma acção. Através disso, atestamos que a acção é a posse daquele que a pratica, que é sua, que lhe pertence propriamente. Sobre este acto ainda neutro do ponto de vista moral enraíza‑se o acto de imputação que reveste uma significação explicitamente moral, no sentido em que ela implica acusação, desculpa ou absolvição, censura ou louvor, em suma, estimação segundo o «bom» ou o «justo». Dir‑se-á: porquê este vocabulário desajeitado do si-próprio em vez do eu? Simplesmente porque a adscrição pode ser enunciada em todas as pessoas gramaticais: na primeira pessoa na confissão, na aceitação da responsabilidade (eis‑me), – na segunda pessoa na advertência, no conselho, na ordem (tu não matarás), – na terceira pessoa na narrativa, o qual vai precisamente ocupar‑nos em breve (ele diz, ela pensa, etc.) O termo si‑próprio, ipseidade, cobre o leque aberto pela adscrição no plano dos pronomes pessoais e de todos os termos gramaticais que dependem dele: adjectivos e pronomes possessivos (meu, o meu - teu, o teu, - seu, sua, o seu, a sua, etc.), advérbios de tempo e de lugar (agora, aqui, etc.).

Antes de assinalar a região em que a questão do si-próprio recobre a do mesmo, insistamos no corte não apenas gramatical, ou até mesmo epistemológico e lógico, mas francamente ontológico que separa idem e ipse. Estou aqui de acordo com Heidegger para dizer que a questão da Selbstheit [ipseidade; cf. & 64 do SuZ] pertence à esfera de problemas que derivam da espécie de entidade que ele chama Dasein e que ele caracteriza pela capacidade de se interrogar sobre o seu próprio modo de ser e assim de se relacionar ao ser enquanto ser. À mesma esfera de problemas pertencem as noções tais como ser no mundo, cuidado, ser‑com, etc. Neste sentido a Selbstheit é um dos existentialia [existenciários] que convêm ao modo de ser do Dasein, como as categorias, no sentido kantiano, convêm ao modo de ser das entidades que Heidegger caracteriza como Vorhanden e Zuhanden [literalmente, o que está à mão, “manipulável”, neutro; cf. & 22 do Suz]. O corte entre ipse e idem exprime finalmente o mais fundamental entre Dasein e Vorhanden/Zuhanden. Só o Dasein é meu, e mais geralmente um si-próprio. As coisas, sendo dadas e manipuladas, podem ser ditas minhas, no sentido de identidade‑idem.

Dito isto, o si-próprio encontra-se em intersecção com o mesmo num ponto preciso, precisamente a permanência no tempo. É, com efeito, legítimo interrogar‑se sobre o tipo de permanência que convém a um si-próprio, quer a tomemos, na linha de adscrição, por a de um carácter, definido por uma certa constância das suas disposições, quer lhe reconheçamos, na linha da imputação, a forma de fidelidade a si próprio que se manifesta na maneira de manter as suas promessas. E contudo, por mais próxima em aparência, que esta manutenção de si próprio (para traduzir com Martineau a expressão Selbst-Ständigkeit de Heidegger [& 64 SuZ]) esteja da permanência no tempo do idem, trata‑se de duas significações que se recobrem sem se identificar.

O problema que nos ocupará, a partir de agora, procede precisamente da sobreposição entre as duas problemáticas, a qual se produz desde que tratamos da questão da permanência no tempo. A minha tese, desde logo, é dupla: a primeira é que a maioria das dificuldades que ocupam a discussão contemporânea sobre a identidade pessoal resulta da confusão entre duas interpretações da permanência no tempo; a segunda é que a noção de identidade narrativa oferece uma solução às aporias referentes à identidade pessoal.”

 

Ricoeur, “L’identité narrative”, Esprit 7/8 (Julho-Agosto, 1988), pp.295-299

 

RETORNAR