DAMÁSIO E O SENTIMENTO DE SI

 

Rita Guerra

 

 

        Damásio sabe que o mundo é um mundo de possibilidades e riscos, a filosofia sabe eticamente que o sujeito protagonista da sua própria vida constitui para si mesmo a dupla face de uma ameaça e de uma promessa. O Sentimento de Si de António Damásio, é o sentimento de quem acredita que a consciência, enquanto fenómeno biológico natural emergente nos seres vivos com um elevado grau de complexidade, tem como protagonista principal o sentido do si, e portanto ela remete para a questão inquietante que ocupa todos os domínio do saber e se alarga também à individualidade de cada um de nós: quem somos? O que somos capazes de conhecer acerca de nós próprios? Ou numa das três formulações à maneira kantiana, o que nos é permitido esperar? Sujeitos de um solipsismo absoluto, proprietários solitários de pensamentos, sonhos, recordações, no palco de um mundo que nos aparece, ou sujeitos únicos e individuais que perante o outro se constituem plenamente numa troca de olhares de quem sabe que o mundo não começa quando sozinhos? A consciência de Damásio carece do outro? Que sentimento é esse em que aparecemos mas fundamentalmente nos aparecemos? No ponto de vista de Damásio a consciência e só ela permite per si que se coloquem questões acerca da própria consciência, abrindo ao mesmo tempo caminho para a construção de território de todas as outras questões e campos do saber. Sem a consciência não só não seríamos, como não saberíamos que somos. Que implicações tem esta consciência de Damásio enquanto função biológica crítica, ou melhor: que implicações e/ou consequências filosóficas advêm do facto de se definir a identidade pessoal com o critério fundamental assente na consciência? Defenderemos a tese, proposta aliás por Damásio, que a consciência amplia o impacto dos sentimentos na mente, e que isso faz de cada um de nós seres vivos marcados por um carácter de unicidade e insubstituibilidade. O ponto crítico que nos habilitamos a discutir reside portanto na tese de que as emoções não só são o alicerce fundamental na constituição da tomada de posição humana, tese anteriormente elaborada e defendida por Damásio no O Erro de Descartes, mas também que a consciência é a característica biológica decisiva para a compreensão do que emocionalmente nos afecta e sentimos. Ou seja, o sentido do si permitirá pois que o sentimento da emoção se torne conhecido pelo organismo mesmo que experimenta tal emoção, donde se segue que o si insubstituível e único de cada um de nós é uma espécie de suporte ou base indispensável para que possamos sentir e para que esses sentimentos façam sentido como nossos, experimentados, vividos e pensados pelo lugar inalienável de cada um de nós. Debruçamos este ensaio na consideração exclusiva de que a consciência nuclear abraçando o sentimento da emoção e respectivo conhecimento dela, permite o estabelecimento pelo menos da base indispensável e/ou necessária à construção da identidade pessoal, segundo os moldes definidos por Damásio.

 

        É importante assinalar desde logo que Damásio não considera, no entanto, que o problema da consciência se restringe à questão do si, mas que por um lado permite compreender o modo como o organismo humano através do cérebro constrói as imagens de um dado objecto, no sentido da constituição de um padrão neural, e por outro lado permite também explicar como o cérebro para além disto produz no acto de conhecer esse objecto, o sentido do si. Porque a consciência é o que permite que sejamos potencialmente actores, espectadores e proprietários da cena do mundo, isto é, ela traz à boca de cena a presença do si e sem ela o próprio eu não permaneceria: «A consciência, no seu plano mais simples e básico, permite-nos reconhecer o impulso irresistível para conservar a vida e desenvolver um interesse por si mesmo. A consciência, no seu plano mais complexo e elaborado, ajuda-nos a desenvolver um interesse por outros si mesmos e a cultivar a arte de viver.»[1] Ora, os alicerces biológicos da consciência podem esclarecer qual o sentido do si no acto de conhecer. A consciência é um fenómeno na primeira pessoa, ocorre na mente de cada um, mas tanto a consciência como a mente se relacionam com comportamentos passíveis de ser observados por outros, até porque temos natural propensão para a observação do comportamento dos que nos rodeiam. É possível portanto estabelecer uma interligação entre um dado comportamento, o seu correlato mental privado e determinada função da actividade cerebral. Ao contrário da consciência face ao estado de vigília, Damásio defenderá a tese forte de que a consciência e a emoção não podem estar separadas, isto é, quando a consciência se encontra alterada a emoção também se encontra comprometida. O âmbito da consciência nuclear, uma das duas formas de organização da consciência (a outra é a consciência alargada), a saber a mais simples, é o aqui e agora: «A consciência nuclear não ilumina o futuro, e o único passado que nos permite vagamente vislumbrar é o que ocorreu no instante exactamente anterior. Não corresponde a nenhum algures, não corresponde a nenhum antes, nem corresponde a nenhum depois.»[2] A consciência nuclear é apresentada como não sendo característica exclusivamente humana e como não dependendo enquanto fenómeno biológico simples, de aptidões como a linguagem, a memória, a atenção ou o raciocínio.

        A consciência nuclear traz o ser para o conhecimento mas não ilumina esse conhecimento na sua plenitude, leia-se não o preenche de criatividade e de possibilidades, ela corresponde simplesmente ao si nuclear e não constitui dessa forma o apogeu da consciência. Como surge então, na mente, o sentido do si no acto de conhecer? Ter um sentido do si é condição necessária para o conhecimento, mas também para o próprio processamento de todos esses objectos que são conhecidos. Assim, diríamos que o problema da consciência tem que ser visto tendo em conta um dado organismo, um certo objecto e as relações entre eles estabelecidas, ou seja, o organismo tem uma relação com o objecto e o objecto por sua vez introduz modificações no próprio organismo. Mas onde encontramos esse sentimento do si? «As raízes profundas do si, incluindo o si alargado que abarca identidade e individualidade, podem ser encontradas no conjunto dos dispositivos cerebrais.»[3] O organismo é representado no cérebro, donde se segue para Damásio que a vida e a consciência são inseparáveis, que a consciência é o dispositivo mesmo gerado no cérebro que temos ao nosso alcance para garantir a sobrevivência e autopreservação, na medida em que é ela que permite estabelecer a ligação entre a regulação da vida interior e a manipulação de imagens, gerando o conhecimento do indivíduo na perspectiva do próprio organismo.

        Onde intervém aqui a nossa questão do sentir? O sentir, dispensando palavras, é a forma mais simples do conhecimento surgir na mente. A consciência é o fenómeno que começa quando sente o que acontece quando vemos aquele filme, ouvimos esta música, ou nos sentamos a tocar piano. Porque a consciência é um sentimento, isto é, é um sentimento que acompanha e apreende os estados do nosso organismo e só esse sentimento permite que reclamemos essa visão, audição e toque como nossos: «(…) a consciência é conhecimento, o conhecimento é consciência (…)».[4] A consciência reclama-se apenas do conhecimento desse objecto ou de dada acção sem que aí intervenha qualquer consideração de carácter moral. Porquê distinguir a consciência da mente? Justamente porque a consciência é a parte especial da mente que diz respeito ao si e ao conhecimento. As emoções e os sentimentos são sensivelmente acerca do corpo, conseguimos sentir a origem do si na representação da vida, somos corpo vivo, portanto os estados internos do organismo controlados pelo cérebro constituem o alicerce necessário para o si. A consciência sustenta o poder de contar uma história sem palavras, donde se aponta desde logo esta estranheza de Damásio, suporta a história da vida do organismo cujos estados se alteram permanentemente pelo próprio contacto com objectos e acontecimentos do mundo real ou do cenário da imaginação. A consciência possibilita a capacidade de compreensão dos sentimentos causados por emoções e sem quaisquer excepções culturais, económicas ou sociais, os homens são homens de emoção, atentos também às emoções por outros reveladas, buscam umas e em geral evitam outras. O impacto da emoção depende dos sentimentos gerados, mas a emoção, ao contrário do sentimento, é sobretudo pública e revelada no exterior à presença de outro, enquanto os sentimentos são essencialmente da ordem do que se debruça no privado.

        Porque é que os sentimentos na sua manifestação mais plena carecem da consciência? Justamente porque os sentimentos e em especial o sentido do si só podem ser conhecido por aquele que os experimenta. Tal consideração não alinha na ideia que tenhamos que estar conscientes das emoções ou sentimentos que se desenrolam no nosso organismo, mesmo que isso seja de facto o mais frequente, porquanto segundo Damásio emoções e sentimentos acontecem enquanto processos biológicos sem que estejam por vezes presentes à consciência. Assim, embora o estado de emoção, de sentimento e de sentimento quando tornado consciente, se desenvolvam numa linha contínua, são três fases passíveis de distinção. Ou seja, só no estado de sentimento tornado consciente tanto a emoção passível de desencadear-se não conscientemente quanto o sentimento passível de representar-se de forma não consciente, são conhecidos pelo organismo. Tal significa que sem a presença da consciência o ser humano não experimenta as consequências últimas das emoções e dos sentimentos, mas que os mecanismos biológicos básicos que executam as emoções não carecem de consciência[5]. Tal como a consciência também é o caso que a emoção se destina à sobrevivência, mas que relação mais funda existe entre a consciência nuclear e a emoção? Nas perturbações mais radicais da consciência nuclear a emoção é igualmente suspensa, Damásio assinala a possibilidade que a base neural de ambas seja comum, dispõem de dispositivos situados na mesma região do sistema nervoso, o que não é o caso entre a emoção e a consciência alargada, daí que a perda de certas emoções exerça por vezes dramática influência, comprometendo, a tomada de decisões racionais: «Não parece que a razão tenha qualquer vantagem em funcionar sem a ajuda da emoção.»[6] Damásio avança com a tese que os sentimentos têm porventura uma relação privilegiada com a consciência na medida em que estes estão na fronteira que separa o ser do conhecer. A sua novidade assenta no facto dessas emoções induzidas de forma não consciente surgirem e/ou estarem presentes ao si consciente. As emoções são um barómetro fidedigno do nosso bem-estar, sendo que não conseguimos de facto evitar, pelo menos cabalmente, a expressão de um emoção, de um sorrido genuíno quando algo profundamente nos agrada ou de uma tristeza comovida quando se despede quem realmente gostamos, isto é, podemos disfarçar certas manifestações externas da emoção, mas dificilmente somos capazes de bloqueá-las ou impedi-las de acontecer nas profundezas do nosso cérebro.

        O ciclo emoção-ao-sentimento-emoção é revelador de um comportamento consciente e quando suspenso um observador facilmente detectará uma estranheza no comportamento observado. Temos emoções primárias e/ou universais – alegria, tristeza, medo, cólera, surpresa ou aversão –, emoções secundárias ou sociais – vergonha, ciúme, culpa, orgulho – e emoções de fundo – bem-estar ou mal-estar, calma ou tensão. O que nos importa do ponto de vista filosófico na tese de que é possível a posse de emoções sem consciência, sem que elas se tornem presentes à consciência, é a necessidade que Damásio também parece enfrentar de encontrar algo mais primitivo do que a consciência na ordem do que acontece, do que humanamente nos acontece, que essas emoções são o que de comum possuímos, tal como os sentimentos, num postulado ético de que não estamos sozinhos. Porque admitindo que a consciência se sente, ninguém sente na radical solidão e despojamento do outro. Ou seja, as emoções desempenham um papel regulador na vida do organismo, nomeadamente ajudando à manutenção da própria vida, é verdade que são dependentes de certos dispositivos cerebrais inatos, mas esses dispositivos são passíveis de activação sem que haja para tal deliberação consciente. Essas respostas emocionais que damos suscitam alterações profundas tanto no nosso corpo quanto no nosso cérebro. Aliás, as emoções de fundo são a prova sobrevivente nos casos de certas perturbações neurológicas menos profundas, embora se encontrem suspensas quando a consciência nuclear entra em colapso: «As emoções e a consciência nuclear tendem a estar presentes em conjunto, ou ausentes em conjunto.»[7] Damásio admite de facto, na linha do que atrás foi dito, que as emoções são essencialmente semelhantes, são o espaço onde o comum entre nós acontece. Porque nos homens razão e sabedoria devem acompanhar as reacções de carácter emotivo. Portanto diríamos, que a relevância das emoções para a consciência radica na consideração de que são elas que mais primitivamente fornecem ao organismo o desenho do caminho da sobrevivência. A emoção acede ao pensamento pelo próprio sentimento, sendo pela consciência que conhecemos depois esses sentimentos. Também a cultura e o desenvolvimento individual, independentemente do design biológico dos mecanismos emocionais, influenciam as nossas respostas e aquilo que somos. O mundo não nos é indiferente, isto é, os mecanismos biológicos subjacentes à emoção acompanham a forma como nos comportamos, esteja esse comportamento ou não presente ao escrutínio da consciência. Damásio defende, e julgamos que com bastante pertinência, que nas considerações sobre o que somos, fazemos e o mundo à nossa volta, intervém sempre um certo grau de emoção: «No que respeita à emoção não temos maneira de escapar à armadilha que a natureza nos preparou. Caímos nela à ida ou à vinda.»[8]

        Porque é que a dor não é uma emoção? Segundo Damásio a dor é uma qualidade distintiva de certas emoções, isto é, sem a intervenção do si não há maneira de sabermos que temos uma dor, mesmo que sem a consciência o cérebro seja per si capaz de produzir os padrões neurais correspondentes à dor e o organismo revele comportar-se de forma adequada a por exemplo, evitá-la. Ou seja, na ausência da consciência o que reage é tão-só o organismo, capaz de representar as respostas adequadas em face de situações concretas, mas o si está ausente. Acerca do que aqui nos ocupa, emoção e consciência, verificamos que há uma notável articulação entre comportamentos externos e emoções de fundo que lhes são subjacentes, ou seja, para Damásio o facto da consciência assumir uma perspectiva privada não só não impede o tratamento científico e/ou objectivo de estados subjectivos, quanto não nos coloca sozinhos diante de um mundo que acontece independente de nós, porquanto em relação à alteridade somos permanentemente convidados à observação desse comportamento exterior, desse outro que entra na nossa vida sem convite ou intimação prévia e por isso tem nela uma presença autêntica. Em ultima instância, pretende-se aqui defender, as nossas emoções mais estruturantes são causadas pela presença, acção e comportamento de outros: «É que nós, enquanto seres humanos, apesar de notáveis características individuais que transformam cada um de nós num ser verdadeiramente único, partilhamos características biológicas semelhantes em termos da estrutura, organização e função dos nossos organismos.»[9]

        Ora, a tese forte de Damásio radica na consideração do si ser indispensável a qualquer noção válida de consciência, é ele o responsável pelo conhecimento fornecido à mente da existência do organismo individual, porquanto o conhecimento do si altera tanto o processo mental quanto o comportamento exterior do organismo, mesmo que a sua efectiva presença só seja inteiramente e/ou directamente acessível ao seu proprietário. A consciência é o que possibilita o conhecimento e o si. Como estudar as ausências de consciência se aí não estamos obviamente conscientes? É possível, segundo Damásio, possuir na mente conteúdos adequados com os objectos que nos rodeiam sem que haja simultaneamente um conhecimento centrado no si, sem que haja uma continuidade entre o instante anterior e o imediatamente seguinte, ou seja, a um organismo desprovido do si o que resta é uma amálgama de imagens na mente que nunca poderão tornar-se de facto conhecidas, coisas que não podemos reclamar como nossas. Sem querer entrar na consideração de perturbações neurológicas específicas, o que nos parece relevante destacar nestas crises de alteração de consciência é a óbvia separação entre por um lado a manutenção de uma certa vigília, atenção elementar, comportamentos adequados e dirigidos, e por outro a emoção que desaparece tal como o si e a capacidade de conhecer. Damásio estabelece que a linguagem e a memória não são critérios determinantes para a consciência, na medida em que são posteriores ao aparecimento do si, donde se segue que a consciência nuclear se mantém intacta nos casos em que os indivíduos não conseguem traduzir na linguagem os seus pensamentos, assim como é o caso que a consciência nuclear apenas carece de um brevíssima memória do aqui e agora[10]. 

        A consciência nuclear e o sentido do si são dois dados imprescindíveis, «a consciência nuclear constitui ela própria o conhecimento, directo e sem qualquer verniz inferencial, do nosso organismo no acto de conhecer[11], sendo que só posteriormente nos é possível reivindicar como nossos esses pensamentos, agir sobre eles ou de acordo com eles, reclamando-nos protagonistas e autores insubstituíveis da nossa própria vida. Esse sentimento interno dado pelas imagens em que se baseiam a consciência nuclear, prova a existência de um sujeito nas relações mantidas entre um organismo e um objecto no acto de conhecer, isto é, conhecer implica um sujeito conhecedor: «Não existe qualquer processo detectável de inferência, nenhum processo lógico detectável que aí conduza, e nenhumas palavras: existe a imagem da coisa, e mesmo ao lado da coisa, a sensação da sua pertença por parte do sujeito.»[12] Os pensamentos formados na actividade mental pertencem a si e não a outrem, a consciência é o que permite articular que sejamos simultaneamente observadores, conhecedores e enquanto proprietários dessas mesmas coisas, capazes de agir sobre elas: «A essência da consciência nuclear é o pensamento mesmo de si – o sentimento mesmo de si – como ser individual empenhado no processo de conhecer a sua própria existência e a existência dos outros.»[13], portanto ela é, defendemos, do ponto de vista de um postulado ético aquilo que nos coloca a caminhar em direcção do outro.

        O nosso sentido do si é um estado do organismo resultado de interacções contínuas, alteráveis numa construção e num esquema per si vulneráveis. Somos frágeis e essa fragilidade é, reforçamos, biológica e eticamente a marca e o traço humanos. O ser humano sempre constitui uma ameaça para si mesmo, à maneira de Damásio diríamos que o colapso está sempre à espreita. Para concluir, assinalamos que a consciência começa por um sentimento especial, sente-se, é construída pela linguagem não verbal dos estados do corpo, é um sentimento do conhecer, na medida em que a representação que ela faz de uma relação entre o organismo e o objecto transforma-se no sentir de um sentimento. A consciência revela a existência, permite porventura modificá-la. A consciência e o sentimento permitem conhecer o si, «(…) sabemos que temos uma emoção quando se cria, nas nossas mentes, o sentido de um si que sente.»[14].

 

        Onde se dá essa passagem entre a dimensão biológica e a dimensão ética, essa passagem entre o corpo e a vida? Onde é que opera essa síntese ou essa cópula? O que é que obriga a esta passagem do puramente biológico à realidade ética? O possível, à maneira do velho Aristóteles, é o horizonte mesmo do ético, é o que é possível pela presença humana, aquilo que sem a nossa intervenção, sem a nossa tomada de posição nunca seria nem chegará a ser, é o kairos enquanto oportunidade aproveitada. O possível define o horizonte do prático, da emergência na existência daquilo que só é compreensível e justificável pela acção e intervenção humanas, é a passagem do em si ao para si. Porque, defendemos, o que está dado é uma possibilidade, é uma oportunidade e o que vem a ser é apenas isso, essa possibilidade efectivada e essa oportunidade aproveitada. O possível humano é indissociável naturalmente do corpo, mas é um corpo como dimensão efectiva da própria vida, isto é, o ser humano é o ser das oportunidades ganhas e perdidas, não é nenhuma garantia dada nem um certificado de válidas e estritas competências. O ser pessoa não se esgota numa função, mas é fundamentalmente uma presença. Por isso quando Damásio se permite revelar a inconfidência pressentida ao longo de toda a obra, «Tenho até alguma esperança de que a compreensão da biologia da natureza humana nos ajude um pouco nas decisões que precisamos de tomar.»[15], filosoficamente reforçamos «só um pouco» Damásio, porque a emergência da novidade, do imprevisível, é a nota própria e específica da presença indesmentível do humano. Somos presença, porque aquilo que é importante em cada um de nós permanece importante mesmo quando porventura desaparecemos ou tão só nos ausentamos. Permanece nos outros e no mundo, permanece na relação mesmo quando um dos termos da relação já não existe. A consideração cabal e autêntica da alteridade é a adopção dessa presença, é a sua confirmação e o seu preenchimento, é mais especificamente essa presença mesma, sem a qual ela não existe nem para si mesma. A identidade pessoal é idêntica à impossibilidade de fazê-la coincidir com qualquer conceito de ser humano, é esta distância de si a si que o faz, porquanto o homem não tem nenhuma imagem que o devolva perfeitamente, justamente porque nenhuma imagem o esgota. Sem desprezo pelo que biologicamente somos, já que seria ridículo tal disposição, sem indiferença perante o que cientificamente se descobre e se alcança também como novidade, sem qualquer oposição ao debate e à relação fecunda entre a ciência e a filosofia, há no entanto algo irredutível à observação e conclusão científica em que o cérebro determina fundamentalmente o que somos, algo que escapa a qualquer comportamento susceptível de análise e observação, e que é a biografia de uma novidade, de uma narrativa humana que filosoficamente será sempre à maneira de Kant uma síntese entre a causalidade e o percurso da liberdade de se inventar a si próprio.

 

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[1] DAMÁSIO, António R., O Sentimento de Si. O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, trad, P.E.A, Mem Martins, publicações Europa-América, 2004, Capítulo Um, p.24.

[2] Ibidem, Capítulo Um, p.36.

[3] Ibidem, Capítulo Um, p.42.

[4] Ibidem, Capítulo Um, p.46.

 

[5] O caso do paciente David descrito entre as pp.64-68 é exemplificativo de como o organismo desenvolve naturalmente determinado tipo de comportamento adequado a estímulos recebidos do exterior, sem que nesse processo intervenha qualquer deliberação consciente. A consciência nuclear de David mantém-se incólume, o que confirma a tese que o facto de controlarmos uma dada emoção não implica que dela estejamos conscientes.

 

[6] Ibidem, Capítulo Dois, p.62.

[7] Ibidem, Capítulo Três, p.125.

[8] Ibidem, Capítulo Dois, p.81.

[9] Ibidem, Capítulo Três, p.108.

[10] Mais uma vez o caso do paciente David, descrito entre as pp.143-148, constitui um bom exemplo de manutenção da consciência nuclear e respectivo si nuclear, sem que para tal as dimensões da linguagem e da memória careçam de intervir substancialmente.

[11] Ibidem, Capítulo Quatro, p.152.

[12] Ibidem, Capítulo Quatro, p154.

[13] Ibidem, Capítulo Quatro, p.155.

[14] Ibidem, Capítulo Nove, p.319.

[15] Ibidem, Capítulo Onze, p.360.