IDENTIDADE SUBSTANCIAL E
IDENTIDADE DE CONSCIÊNCIA EM LOCKE
No mundo em
que habitamos, a sabedoria humana é já considerada como algo inquestionável em
termos de existência. Contudo, há certos conceitos que embora possam aparentar
possuir um traço universal, ao serem defendidos pela maioria das pessoas, devem
ser questionados de modo a se poder verificar um enriquecimento dos nossos
conhecimentos. Assim sendo, no âmbito dos nossos estudos, não deverá ser
desprovida de importância uma referência ao capítulo intitulado “Da identidade
e da diversidade”[1], de John Locke, o qual me
proponho aqui analisar, na medida em que coloca ao nosso dispor de uma forma
original, determinadas questões que agitam a imposição de certas definições
assimiladas como se fossem inquestionáveis.
Assim,
seja-me permitido, antes de mais, e em termos que se prendem com o campo
filosófico no qual me pretendo movimentar, começar por questionar o que devemos
entender por identidade e diversidade. Ora, John Locke constrói o seu capítulo
exactamente em torno deste esclarecimento. Assim, começa por nos dizer que ao
abordarmos o tema da comparação, devemos ter em conta a essência das coisas (o
que elas são). Deste modo, é crucial perceber esta associação entre a
comparação e a essência das coisas. No entanto, como interpretar esta
associação, senão tendo em conta que a comparação através da identidade e da
diversidade, enquanto meios de que se serve, contribui para a significação da
essência das coisas? Contudo, para uma melhor compreensão do que está em causa,
convém aprofundar estes “meios de comparação”[2].
Com efeito, um dos aspectos da identidade consiste no facto de algo ser esse
mesmo algo e não outro, por existir num determinado tempo e lugar.
Acrescentando-se que mesmo que haja algo que lhe seja similar e que possua
características indistinguíveis das suas, o facto de esse algo semelhante não
estar ao mesmo tempo num mesmo espaço e num mesmo tempo do que esse algo
referido anteriormente, faz com que sejam coisas
distintas, ou seja, diversas, tendo cada uma delas a sua identidade. Contudo,
ao reflectirmos em torno da identidade, é necessário ter em conta que, tal como
nos alerta Locke, “nisto consiste a identidade,
quando as ideias à qual são atribuídas não variam a qualquer nível em relação
ao que eram nesse momento em que considerámos a sua existência prévia, e em
relação à qual comparamos a presente”[3].
O que é certo
é que Locke afasta a hipótese de duas coisas do mesmo género conseguirem
existir ao mesmo tempo num mesmo espaço e assim sendo, quando queremos saber se
algo é ainda o mesmo, estamo-nos apenas a dirigir a algo que quando se
principiou a existir num certo lugar e numa dada altura, além de ser esse mesmo
algo, não consistia em nenhum outro. Porém, o que me parece possuir uma maior
relevância, é o facto de que, se não é possível que duas coisas do mesmo género
ocupem ou existam no mesmo lugar ao mesmo tempo, tal como é impossível uma
coisa existir em distintos lugares, consequentemente, e tal como menciona
Locke, cada coisa tem um e só um princípio de existência, o qual somente lhe
pertence a si. E assim, estamos em face de uma mesma coisa, caso esta mesma
coisa tenha tido apenas um princípio de existência, e estaremos perante uma
outra coisa, caso esta tenha tido um princípio de existência distinto da
primeira coisa no tempo e no espaço.
E persistindo
na ilustração dos conceitos de identidade e de diversidade, convém ter em conta
em que é que consiste a identidade de Deus, dos espíritos finitos e dos corpos,
na medida em que tal como salienta Locke, só temos ideias de três géneros de
substâncias. Assim sendo, acerca de Deus o autor menciona o facto de Ele não
ter um princípio de existência nem um fim, sendo algo que não se altera e que
está ao mesmo tempo em toda a parte, e por isso a constituição da sua
identidade é nítida. Já no que diz respeito às inteligências finitas, Locke
menciona que estas, desde que principiam a existir, têm o seu espaço e tempo
marcados, e enquanto existirem o que marcará a sua identidade é a relação com
esse espaço e tempo. De facto, contrariamente a Deus que de certo modo tem uma
identidade que se caracteriza pelo facto de ser eterno, infinito, não estando
inscrito somente num determinado tempo ou espaço concreto, as inteligências
finitas ao serem determinadas desde a sua existência por um determinado tempo e
espaço, distinguem-se claramente, entre outros motivos, de Deus. No que diz
respeito as partículas de matéria, poder-se-á considerar que estas só se
alteram caso lhes seja retirada ou adicionada qualquer matéria.
O que é certo
é que segundo Locke, somente não há dúvidas, no verdadeiro sentido da palavra,
sobre a diversidade de coisas como o movimento e o pensamento, os quais são
comportamentos dos seres finitos e cuja existência consiste na sucessão. De
facto, não se pode falar de um mesmo movimento ou pensamento em distintos
momentos ou espaços, pois cada movimento ou cada pensamento finda ao principiar
a existir, e por isso cada um deles tem um princípio de existência distinto dos
outros. Com efeito, e tal como se pode observar pelo que tem sido exposto, o
que está em causa é, tal como nos diz Locke: “é a existência em si mesma”[4],
ou seja, é graças a ela que um ser independentemente do seu género, existe num
determinado espaço e num momento qualquer, nos quais um outro ser do mesmo
género não poderá existir simultaneamente. Contudo, torna-se fundamental tentar
explicitar de um modo mais claro, esta ideia de se ser o mesmo, e para isso
nada melhor do que recorrer aos vários exemplos que Locke nos fornece ao longo
do seu capítulo. De facto, o autor supõe um átomo que define como “um corpo
contínuo sob uma superfície imutável”[5],
que exista num certo tempo e espaço, explicando-nos que se tivermos em conta um
momento qualquer da sua existência, nesse mesmo momento ele é somente ele mesmo,
e poderá continuar a ser caso a sua existência tenha continuidade. E é assim
que segundo Locke, caso vários átomos existam de forma agrupada numa mesma
massa, estes permanecerão os mesmos e nada mais, somente se a sua existência
continuar. No entanto, essa mesma massa que contém os vários átomos só será a
mesma, caso o número de átomos nela inseridos não sofra nenhuma alteração.
Assim, poder-se-á considerar segundo o que nos dá a entender Locke, que no caso
de uma massa ou de um corpo, estes só serão os mesmos caso mantenham as mesmas
partículas, e é nisto que consiste a sua identidade. Contudo, o mesmo não se
poderá estender aos seres vivos, para os quais a identidade tal como nos elucida
Locke, não se pode basear numa massa que possua as mesmas partículas, pois tal
como é facilmente verificável, elas alteram as medidas da sua massa, e isso não
afecta a sua identidade. De facto, tal como nos exemplifica o autor, tanto um
carvalho como um cavalo, ambos passam por um determinado processo de
desenvolvimento, ao longo do qual as suas partículas vão-se alterando de forma
a constituir distintas massas de matéria ao longo da sua existência, contudo,
ambos são o mesmo carvalho e o mesmo cavalo em todos os momentos da sua
existência, mesmo que a massa de matéria que possam possuir num determinado
instante se altere. Com efeito, uma coisa é a identidade de uma massa de
matéria e outra bem distinta é a identidade de um ser vivo, pois tal como nos
dá a entender Locke, a distinção entre um carvalho e uma massa de matéria,
prende-se com o facto de a primeira ser somente a união de partículas de matéria
unidas independentemente da sua forma, enquanto que no caso de um carvalho verifica-se
uma organização das partículas de matéria, de modo a formar as partes de um
carvalho. Há uma certa lógica da distribuição
das partículas, pois a disposição destas é imprescindível para a constituição
das partes de um carvalho, as quais têm uma certa disposição fundamental para
que se verifique uma certa recepção e fornecimento de alimento, de modo a dar
continuação e a originar a constituição de um carvalho, ou seja, o que
constitui a vida vegetal. Contudo, o
que deverá ser sublinhado nas palavras de Locke é o facto de que uma planta
continua a ser a mesma “enquanto partilhar da mesma vida”[6],
mesmo que “essa vida seja transmitida para novas partículas de matéria, unidas
de forma vital à planta viva numa organização contínua e semelhante”[7].
Ou seja, poder-se-á falar da vida singular da planta, pois a organização
anteriormente referida, ao estar em determinada altura num certo espaço de
matéria, diferencia-se das restantes. Devendo-se acrescentar que é a vida singular
que “tem essa identidade que constitui a mesma planta e todas as suas partes
(…) durante todo o tempo que existirem unidas nessa organização contínua, que é
adequada para transmitir essa vida comum a todas as partes unidas dessa forma”[8].
E é neste contexto que Locke vai buscar um exemplo de um relógio para
demonstrar o facto de nas máquinas podermos ver algo semelhante aos seres
vivos. Assim, começa por nos fazer ver que um relógio é um instrumento cuja
construção obedece a uma estrutura adequada das suas partes, de modo a
contribuir para o sucesso da sua função, a qual só pode se realizar caso lhe
seja fornecido uma determinada força. De facto, se tal como nos diz Locke,
imaginarmos um relógio como se tratando de um corpo contínuo, cuja totalidade
das suas partes pudesse ser toda reparada, ou seja, diminuída ou aumentada devido
a “uma constante adição ou separação das suas partes imperceptíveis, com uma
vida comum”[9], estaríamos perante algo
que embora se assemelhasse ao corpo de um ser vivo, distinguia-se deste pelo
facto de que, tal como salienta o autor, num animal o seu movimento vem de si
próprio, do seu interior, enquanto que, no caso de um relógio, ou seja, um
instrumento que pode ser definido como se tratando de uma certa substância ou matéria, que tem uma
estrutura que obedece a uma organização das suas partes, com o intuito de
atingir a sua própria finalidade, se ele não tiver uma ajuda do exterior, isto
é, uma certa força que lhe seja aplicada, mesmo que possua a melhor organização
possível das suas partes, não poderá funcionar. Ao passo que num animal
inicia-se de uma forma simultânea, a sua organização e o movimento em que se
baseia a sua vida.
O que é certo
é que Locke esclarece no que consiste a identidade de um ser vivo, a qual não
consiste, como já foi aqui dado a entender, na preservação dos seus acidentes, para
a partir daí explicitar em que se baseia a identidade de um mesmo homem. Assim,
poder-se-á dizer que estamos em face de um mesmo homem caso esse homem possua
desde a sua existência a mesma vida contínua. Acrescentando-se que o homem é um
ser vivo, e especificamente um animal com uma certa forma, cuja identidade é
preservada, caso o seu organismo conserve a mesma organicidade.
Contudo,
torna-se imprescindível para a compreensão dos conceitos de identidade e de
diversidade na reflexão de Locke, termos em conta que tal como nos diz o autor,
a identidade não se esgota apenas na unidade da substância, sendo esta última,
um dos tipos, se quisermos assim considerar, de identidade. De facto, Locke
aborda outros tipos de identidade, como a identidade de um homem, de uma
pessoa, na medida em que substância, homem e pessoa segundo Locke, não são
termos que remetem para o mesmo. Deste modo, quando queremos saber a identidade
de algo, temos que ter em conta o que é esse algo. Assim sendo, é no sentido de
precisar a essência das coisas que Locke começa por definir um animal como um
corpo vivo com uma certa organização, considerando posteriormente que ser o
mesmo animal não é nada mais a não ser possuir a mesma vida contínua, que se
transmite às distintas partículas de matéria que estejam unidas ou ligadas de
um modo sucessivo ao seu corpo. E é neste contexto que introduz a ideia de
homem como sendo um animal que tem uma determinada forma.
É necessário,
portanto, reconhecer que Locke adopta um certo método, ou seja, antes de expor
em que consiste a identidade de algo, faz questão de anteriormente fornecer a
definição desse algo, acerca do qual irá dizer em que se baseia a sua
identidade. Assim sendo, surge-nos a curiosidade justificada de saber em que
consiste a identidade pessoal. Contudo, convém primeiro precisar o que se
deverá entender por pessoa. Ora, segundo Locke, pelo termo pessoa, devemos
entender um ser que pensa, que é inteligente, que tem a capacidade de
raciocinar, tal como a de reflectir e que tem igualmente a capacidade ou
possibilidade, de reconhecer-se como sendo o mesmo ser pensante em distintos
tempos e espaços, graças à sua consciência que é indispensável para o
pensamento e não se separa deste. De facto, tal como nos dá a entender o autor,
nós sabemos que temos a capacidade para compreender e apercebemo-nos desta
mesma capacidade ao compreendermos algo. Tal como ao darmos uso aos nossos
sentidos, ou quando estamos a reflectir em torno de algo, ou simplesmente
queremos algo, temos uma certa noção acerca do que estamos a fazer, e assim
sendo, é neste contexto que Locke nos diz que “é sempre em relação às nossas
sensações e percepções do presente, e através disto, que cada um é para si
próprio o que chama de eu”[10],
independentemente deste mesmo eu se encontrar numa substância ou em substâncias
distintas. Com efeito, o que está em causa é a própria consciência e o seu
papel, na medida em que a consciência está sempre presente quando há pensamento,
e é graças a ela que cada ser é ele mesmo e que como tal, possa diferenciar-se
das restantes coisas pensantes. De facto, Locke dá-nos a perceber que a
identidade pessoal baseia-se na individualidade de um ser que raciocina, e que
esta individualidade só é possível graças à consciência, pois a identidade de
uma pessoa remete de certa forma para o conteúdo das suas recordações ou da
memória. Dito de outro modo, Locke dá-nos a entender que o critério que
possibilita o reconhecimento de uma pessoa como se tratando da mesma pessoa,
consiste na identidade de si mesmo em alturas distintas no tempo sendo a
memória a faculdade ou aquilo que permite esta identidade.
Assim, após
tudo o que foi abordado pode-se considerar que segundo Locke, ser uma pessoa
não é o mesmo do que se ser um homem e como tal, não basta ter a estrutura de
um ser humano para se ser pessoa, embora o ser humano seja apontado como um ser
vivo que tem a capacidade de ser uma pessoa. De facto, neste sentido,
poder-se-á inclusive dizer que a concepção aristotélica de homem que definia
homem como um animal racional, não tem sentido, pois Locke como já foi aqui
salientado define homem apenas como um animal com uma determinada estrutura,
estando o raciocínio associado ao ser pessoa.
No entanto,
falar-se em identidade pessoal como Locke demonstra, implica falar da
identidade da consciência. Contudo, o autor reconhece uma pesada dificuldade,
ou seja, o facto de o esquecimento interromper a consciência, impedindo esta
última de nos possibilitar numa dada altura qualquer das nossas vidas a
sequência total das nossas acções efectuadas. De facto, Locke dá-nos exemplos
de casos que testemunham esta dificuldade, sendo útil referi-los para uma
melhor compreensão da sua problemática. Com efeito, um primeiro exemplo
prende-se com as nossas memórias mais agradáveis, que não são excepção, pois
também perdemos grande parte delas ao experienciarmos outras. Um outro caso é
perfeitamente actual no nosso quotidiano, ou seja, o facto de por vezes, os
nossos pensamentos do presente ocuparem-nos de tal modo que nem paramos para reflectir
em torno do nosso passado. E não só: no sono profundo, caso tenhamos algum
pensamento, este não possui o grau de consciência habitual dos nossos
pensamentos de vigília. Com efeito, se nestes casos a nossa consciência é
interrompida, fazendo com que percamos acontecimentos do nosso passado,
surge-nos desde logo uma questão: será que ainda nos podemos considerar como a
mesma coisa pensante? De facto, Locke colocou esta questão e respondeu-a
considerando que se uma pessoa, um ser pensante, for capaz de formular a ideia
de qualquer acção que tenha efectuado no passado, com o exacto grau de
consciência que possuíra dessa mesma ideia no início, tal como com a mesma
consciência que possui das suas acções do presente, será a mesma pessoa, isto
é, “o mesmo eu pessoal”[11].
Com efeito, Locke salienta de uma forma clara a distinção entre ser pessoa e
ser-se a mesma pessoa, ao nos explicar que é graças à consciência que uma
pessoa tem dos seus pensamentos e acções do presente que a pessoa é ela
própria, contudo, para que essa pessoa possa continuar a ser a mesma pessoa, a
sua consciência terá que conseguir abranger e unir acções passadas a acções
futuras. Não querendo isto dizer tal como nos alerta Locke, que passará a ser
dois eus, ou seja, duas pessoas, pelo facto do conteúdo dessa mesma consciência
traduzir diferenças temporais. Deste modo, apercebemo-nos de que a identidade
pessoal consiste apenas na identidade da consciência, sendo importante
justificar o porquê da identidade da substância ser irrelevante para a definição
de identidade pessoal. De facto, como é de certa forma lógico – e para
salientar esta evidência, que tenciono abordar, vou tentar usar um vocabulário
simples ‑, uma pessoa tem um corpo
e esse corpo é constituído por partículas, por membros, os quais fazem parte
dessa pessoa, pois estão unidos de um modo vital, permitindo que ela os sinta,
tenha consciência deles. Assim, tal como nos faz ver Locke, se cortarmos uma
mão a uma pessoa: a um eu pensante e como tal, consciente, essa pessoa deixará
de sentir essa mão, ou seja, deixará de ter consciência das suas afecções e
como tal, a mão deixará igualmente de ser uma parte desse eu pessoal. No
entanto, a relevância deste exemplo consiste no facto de que cortar um membro
que faz parte do corpo de uma pessoa não altera a identidade pessoal. Ou seja,
essa pessoa não deixa de ser a mesma pessoa caso a substância: corpo, na qual o
eu pessoal possa consistir numa dada altura se modifique, pois a identidade
pessoal não radica na identidade da substância, mas tal como Locke nos faz ver,
na identidade da consciência.
Um outro
aspecto que interessa aqui abordar é a hipótese de duas substâncias pensantes
(imateriais) conseguirem formar somente uma pessoa. Ora, quanto a esta
possibilidade, Locke leva-nos a crer que se puder ser transferida de uma
substância pensante para uma outra substância pensante uma mesma consciência,
então é possível que duas substâncias pensantes formem somente uma pessoa, pois
se essa mesma consciência for preservada em ambas as substâncias pensantes, de
igual modo será preservada a identidade pessoal.
Uma outra
questão é levantada pelo autor, a de se saber se permanecendo a mesma alma
“inalterável, poderão existir duas pessoas distintas”[12].
Em relação a esta pergunta, Locke responde clarificando-nos com a hipótese da
preexistência da alma, ou seja, a possibilidade de uma alma ter tido uma
existência anterior, isto é, um estado preexistente. De facto, o autor vai
buscar esta ideia da preexistência da alma para explicar que a alma ao não possuir
nenhuma consciência desse seu estado anterior, terá necessariamente que
constituir pessoas diferentes. Dito de outro modo, se essa mesma alma não tiver
a mesma consciência, não conseguirá formar a mesma pessoa. De facto, a
identidade pessoal como já aqui foi dito, consiste na identidade da
consciência, e se uma mesma alma deixar de preservar uma mesma consciência,
essa alma deixará igualmente de formar a mesma pessoa, passando a formar outra
distinta. Por outro lado, tal como nos exemplifica Locke, se a alma de um
determinado príncipe trouxer consigo a consciência que esse príncipe possuíra
da sua vida, esta alma ao penetrar e ocupar o corpo de um sapateiro que deixara
de ter uma alma, fará com que o sapateiro possa ser a mesma pessoa que o príncipe,
embora não seja o mesmo homem que ele. De facto, trata-se da mesma pessoa, na
medida em que a consciência do príncipe for preservada, não sendo o sapateiro o
mesmo homem que o príncipe, pois não estamos perante a partilha de um mesmo
corpo, nem de uma mesma vida. Com efeito, tal como podemos observar deste
exemplo, um eu pode continuar a ser esse mesmo eu independentemente do facto
desse mesmo eu poder ser colocado numa outra substância. De facto, para se
poder ser o mesmo eu, não interessa a substância na qual esse eu se possa
encontrar ou vir a ser colocado. Tal como não é relevante se esse eu é
constituído por uma ou por substâncias distintas. Segundo Locke, a identidade
pessoal radica na identidade da consciência e não na identidade da substância e
assim sendo, e retomando o exemplo anteriormente analisado, é neste sentido que
o autor nos faz ver que o sapateiro ao ter a mesma consciência que o príncipe,
daí a ser a mesma pessoa que ele, passa a ser responsável pelas suas acções
futuras, tal como pelas acções que o príncipe realizou. De facto, Locke
transmite-nos a identidade da consciência como algo indispensável para a
identidade pessoal e assim, é neste sentido que nos diz que se um mesmo
Sócrates quando estiver a dormir e quando estiver acordado não possuir a mesma
consciência, então o Sócrates que dorme não pode ser a mesma pessoa que o
Sócrates acordado. E assim, o autor explica-nos que não seria correcto castigar
o Sócrates acordado pelos pensamentos que o Sócrates adormecido teve e acerca
dos quais o Sócrates acordado jamais teve consciência, do mesmo modo que não
seria justo punir um irmão gémeo, pelas acções que o seu irmão realizou e
acerca das quais ele “nada sabia”[13],
só pelo facto de eles serem fisicamente idênticos.
Uma outra
dificuldade que Locke coloca e que deve ser aqui abordada, é a hipótese de
alguém que perde completamente a memória de algumas partes da sua vida, não
conseguindo voltar a tê-las, daí que, em princípio, jamais recupere a
consciência dessas partes de que não se consegue recordar. Poder-se-á dizer que
é a mesma pessoa que realizou essas acções e pensamentos acerca dos quais
possuiu consciência, mesmo que agora não consiga recordá-los? Ora, perante esta
dificuldade, tendo em conta a definição de identidade pessoal que Locke nos
fornece e que já aqui foi mencionada, tal como no que consiste a identidade de
um mesmo homem, poder-se-á considerar que Locke dá-nos a entender que, embora
se possa tratar do mesmo homem, alguém que perca a memória de algumas partes da
sua vida, não conseguindo recuperá-las, não pode ser a mesma pessoa, na medida
em que a identidade da consciência não foi preservada. Com efeito, alguém que
não consiga através da memória ligar à sua consciência presente uma parte da
sua vida acerca da qual antes tinha consciência, na medida em que é graças à
consciência que realizou os seus próprios pensamentos, acções, deixa de ser
esse mesmo eu que antes tinha consciência dessas mesmas partes da sua vida, ou
seja, de acontecimentos que ele experienciara. Assim, percebe-se que Locke nos
faça entender que neste exemplo de alguém que perdeu completamente a memória em
relação a determinadas partes da sua vida, ao perder esta memória faz com que
deixe de ser a mesma pessoa que era, embora se possa tratar do mesmo homem.
Assim, é neste contexto que Locke nos diz que “se for possível ao mesmo homem
ter consciências distintas e incomunicáveis em diferentes momentos, não temos
quaisquer dúvidas de que o mesmo homem constituiria diferentes pessoas em
diferentes momentos”[14].
Deste modo,
dever-se-á reter a ideia de que, e tal como este último exemplo faz notar, a
identidade pessoal consiste somente na consciência e no que esta pode abarcar.
De facto, o autor salienta o papel da consciência, o qual é de certa forma
único, na medida em que é graças à consciência que o eu é construído. Com
efeito, Locke sublinha o facto de somente a consciência conseguir ligar ou
reunir existências (pensamentos, acções) distantes no tempo numa mesma pessoa.
De facto, e tal como menciona Locke, a identidade da substância não é capaz de
cumprir este papel desempenhado pela consciência, pois independentemente da
substância que possa estar em causa e da sua constituição, para que se esteja
em face de uma pessoa tem que haver consciência, pois é a consciência e não a
identidade da substância que constrói o eu, isto é, a pessoa. Dito de outro
modo, a identidade da substância não é relevante para a construção do eu, não é
importante para a constituição da identidade pessoal, pois para estarmos em
face de um eu, não interessa que estejamos perante um homem possuidor de um
corpo vivo com uma determinada estrutura, nem que estejamos em face de um mesmo
homem, ou seja, em face de um homem que possua uma mesma vida contínua. O que é
necessário para que estejamos em face de uma pessoa, ou seja, de um eu, é a
consciência, pois é a consciência que cria ou constrói o eu, e não o facto de
se ser um homem. Deste modo, torna-se perceptível que a identidade ou
diversidade da substância é indiferente para a construção do eu, na medida em
que somente a consciência é que é capaz de o construir.
Por tudo o
que foi aqui dito acerca deste papel da consciência, o qual foi extremamente
explorado por Locke, poder-se-á concluir que a consciência ocupa um lugar
central na questão da identidade pessoal. De facto, poder-se-á mesmo reforçar o
facto de que é graças à consciência que o eu consegue se aperceber ou
reconhecer de que é o mesmo eu que efectuou determinadas acções passadas,
podendo esse eu presente através da consciência de que possui dessas mesmas
acções passadas considerar-se feliz ou infeliz. Contudo, caso esse mesmo eu
perca a memória de determinadas partes da sua vida, de modo a não se conseguir
recordar destas, deixará, segundo nos dá a entender Locke, de se preocupar com
essas acções esquecidas, pois é como se para ele elas nunca tivessem
acontecido. De facto, Locke faz-nos crer que o eu só deve ser responsável por
aquilo de que tem consciência, e é neste contexto que aborda o Grande Dia, para
transmitir a ideia de que será legítimo pensar que nesse dia as pessoas apenas
serão responsáveis por aquilo acerca do qual têm consciência, sendo
recompensadas ou punidas consoante essa mesma consciência. Contudo, o que é
certo é que, não só no tempo em que Locke viveu, tal como nos nossos tempos, as
leis humanas testemunham o facto de a legislação ser capaz de condenar ou
culpabilizar alguém por um acto acerca do qual não tem consciência. De facto,
Locke tinha esta ideia presente e talvez por isso tenha mencionado a excepção
que poderá ser o Grande Dia.
Assim, após
tudo o que fiz questão de destacar e analisar acerca da reflexão que Locke
elaborou em torno “da identidade e da diversidade”, resta-me sublinhar em tom
de desfecho, que John Locke tinha noção de que muitas das suposições que
elaborou pudessem ser estranhas, ou se quisermos, descabidas no sentido de
estarem fora daquilo que é consensualmente defendido. De facto, Locke refere
mesmo a possibilidade de as suas sugestões poderem ser mesmo estranhas.
Contudo, o que é certo é que Locke prestou um enorme contributo ao reflectir
acerca da identidade e da diversidade,
pois além de colocar várias questões, de fornecer as suas sugestões, tal como
de apresentar dificuldades às quais respondeu apresentando soluções para as
mesmas, fez isto tudo de um modo radical, pois a sua reflexão espelha um
conteúdo que mexe com muitas das definições que a maioria de nós considera como
sendo inquestionáveis, no sentido de julgarmos que são sabidas. Porém,
independentemente da reflexão que Locke fornece ser ou não sustentável, ela é
essencial para que possamos tomar consciência de certas dificuldades que a
identidade e a diversidade colocam, se bem que tal como nos dá a entender Locke,
muitas das dificuldades se encontrarem associadas aos nomes que utilizamos e
não tanto nas coisas, acerca das quais nos dirigimos ao tentar saber em que
consistem.
Laura Henrique Brandão Teixeira da Silva
[1]É meu objectivo aqui fazer uma recensão baseada no capítulo intitulado
“Da identidade e da diversidade”, inserido na obra Ensaio sobre o Entendimento Humano, de John Locke. Para tal,
orientei-me pela seguinte tradução: LOCKE, J., Ensaio sobre o Entendimento Humano (II, xxvii, “Da identidade e da
diversidade”), trad. port. Lisboa, Gulbenkian, 1999, I, 433-461;
[2]LOCKE, J., Ensaio sobre o Entendimento Humano (II, xxvii, “Da identidade e da diversidade”), trad. port. Lisboa, Gulbenkian, 1999, I, p.435;
[3]idem, op.cit., p.433;
[4]idem, op.cit., p.435;
[5]idem, op.cit., p.436;
[6]idem, op.cit., p.437;
[7]idem, op.cit., p.437;
[8]idem, op.cit., p.437;
[9]idem, op.cit., p.438;
[10]idem, op.cit., p.443;
[11]idem, op.cit., p.444;
[12]idem, op.cit., p.448;
[13]idem, op.cit., p.453;
[14]idem, op.cit., p.453;