LOCKE E A IDENTIDADE PESSOAL

 

“Em relação às criaturas vivas, a sua identidade não depende de uma massa com as mesmas partículas, mas de outra coisa, visto que nelas a variação de grandes quantidades de massa não modifica a sua identidade: um carvalho que se desenvolve desde planta até ser uma árvore enorme, que a seguir é podada, continua a ser o mesmo carvalho; e um potro que se desenvolve até ser cavalo, uma vezes gordo, outras magro, é em todo o momento o mesmo cavalo; embora em ambos os casos possa haver uma clara modificação de partículas, uma vez que, na verdade, nenhum deles é a mesma massa de matéria, um continua a ser verdadeiramente o mesmo carvalho e o outro o mesmo cavalo. A razão para tal é que, nestes dois casos – uma massa de matéria e um corpo vivo –, a identidade não é aplicada à mesma coisa.

Portanto, temos de considerar em que é que um carvalho difere de uma massa de matéria e isto parece­‑me que reside no seguinte: esta é apenas a coesão das partículas agrupadas qualquer que seja a sua forma (any how united), enquanto no outro caso as partículas são dispostas de forma a constituir as partes de um carvalho, e essa determinada organização dessas partes é adequada para receber e distribuir alimento de maneira a continuar e formar a madeira, a casca e as folhas, etc., dessa árvore, sendo isso o que constitui a vida vegetal. Se é então única uma planta que tem uma determinada organização das partes num corpo coerente, partilhando uma vida comum, ela continua a ser a mesma planta enquanto partilhar da mesma vida, embora essa vida seja transmitida para novas partículas de matéria, unidas de forma vital à planta viva numa organização contínua e semelhante, em conformidade com essa espécie de plantas. Porque esta organização, estando em qualquer momento num qualquer conjunto de matéria, é, neste aspecto, específica, distinta de outras, e é aí que reside a vida singular (…) Podemos ver algo semelhante nas máquinas (…). Por exemplo, o que é um relógio? É evidente que não é mais do que uma organização ou construção adequada de partes com uma certa finalidade que é capaz de atingir, se uma força suficiente lhe for adicionada. Se imaginássemos esta máquina como um corpo contínuo, cujas partes foram todas reparadas, aumentadas ou diminuídas através de uma constante adição ou separação das suas partes imperceptíveis, com uma vida comum, teríamos algo muito semelhante ao corpo de um animal, com a seguinte diferença: num animal, a adequação da organização e o movimento em que consiste a vida iniciam‑se em conjunto, provindo o movimento do interior; nas máquinas, a força provém manifestamente de fora (…). Isto demonstra também em que consiste a identidade de um mesmo homem, a qual nada mais é do que a comunhão de uma mesma vida contínua através das partículas transitórias de matéria que, numa sucessão, estão unidas na vitalidade ao mesmo corpo organizado. (…)

Não é, pois, a unidade da substância que abrange todos os tipos de identidade (…); para percebermos e ajuizarmos isto correctamente, temos de ter em conta a que ideia é que a palavra é aplicada e o que representa, tendo uma coisa de ser a mesma substância, uma outra o mesmo homem e a terceira a mesma pessoa, se pessoa, homem, substância forem três nomes que representam três ideias diferentes (…) Um animal é um corpo vivo organizado e, consequentemente, o mesmo animal, como já observámos, é a mesma vida contínua transmitida às diferentes partículas de matéria, uma vez que estas estão sucessivamente ligadas a este corpo organizado. E o que quer que seja dito acerca de outras definições, a observação honesta esclarece, sem margens para dúvidas, que a ideia nas nossas mentes, da qual o som ‘homem’ que sai das nossas bocas é o sinal, não é mais do que a de um animal com uma certa forma. Julgo poder estar confiante que quem quer que visse uma criatura com a mesma forma ou estrutura que a sua, embora não tivesse mais raciocínio em toda a sua vida do que um gato ou um papagaio, continuaria a chamá‑la homem, ou quem quer que ouvisse um gato ou um papagaio discursar, raciocinar e filosofar, não o denominaria nem o pensaria senão como um gato ou um papagaio; e diria que o primeiro era um homem irracional e estúpido e o outro era um papagaio com raciocínio e muito inteligente. (…)

Temos de ter (agora) em conta o que é que pessoa representa – e que penso tratar‑se de um ser pensante e inteligente, que possui raciocínio e reflexão, e que se pode pensar a si como si próprio (it self as it self) em diferentes tempos e espaços; é‑lhe possível fazer isto devido apenas a essa consciência que é inseparável do pensamento e, pelo que me parece, é essencial para este, sendo impossível, para qualquer um, compreender sem apreender que compreende. Quando vimos, ouvimos, cheiramos, sentimos, meditamos ou desejamos alguma coisa, sabemos o que estamos a fazer. Portanto, é sempre em relação às nossas sensações e percepções do presente, e através disto, que cada um é para si próprio o que ele chama de si (self), não sendo, neste momento, considerado se o mesmo si (self) persiste apenas na mesma substância ou em substâncias diferentes. Porque uma vez que a consciência acompanha sempre o pensamento e é o que faz com que cada um seja ele próprio e, desse modo, se distinga de todas as outras coisas pensantes, é somente nisto que consiste a identidade pessoal, ou seja, a singularidade de um ser racional; e até onde esta consciência retroceder em direcção a uma acção ou pensamento passado, aí chega a identidade dessa pessoa; é o mesmo eu (self) agora e no passado, e é por esse mesmo eu (self) em conjunto com o eu (self) do presente, que agora reflecte acerca do passado, que essa acção foi realizada.

Contudo, questiona‑se, para além disto, se este si próprio (self) é a mesma substância idêntica. Poucos pensariam em duvidar se estas percepções, em conjunto com a sua consciência, se mantivessem sempre presentes na mente, pelo que a mesma coisa pensante estaria sempre conscientemente presente, assim como estaria o pensamento, sendo claramente o mesmo para si próprio. Mas, o que parece levantar dificuldades é o seguinte: esta consciência, sempre interrompida pelo esquecimento, não nos permite em momento algum das nossas vidas, em que teríamos diante dos nossos olhos, numa só imagem, a sucessão completa de todas as nossas acções passadas. Até mesmo uma grande parte das recordações mais positivas se perde de vista enquanto se está a ter contacto com outras e, às vezes, na maior parte das nossas vidas, não reflectimos acerca do nosso próprio passado, visto estarmos tão ocupados com os nossos pensamentos do presente; durante o sono profundo não temos qualquer pensamento ou, pelo menos, não temos nenhum pensamento com o grau de consciência que marca os nossos pensamentos quando estamos acordados. Em todos estes casos, sendo a nossa consciência interrompida e perdendo de nós de vista os nossos próprios passados, surgem dúvidas se seremos ou não a mesma coisa pensante, isto é, a mesma substância ou não. (…) Porque se é a mesma consciência que faz com que um homem seja ele próprio perante ele mesmo, a identidade pessoal depende exclusivamente disso, quer se associe apenas a uma substância particular, quer seja perpetuada numa sucessão de várias substâncias. Na medida em que um ser inteligente conseguir repetir a ideia de qualquer acção passada, com o mesmo grau de consciência que tinha da mesma no início, e com a mesma consciência que tem de qualquer acção presente, nessa mesma medida será o mesmo eu pessoal. Na medida em que é pela consciência que possui dos pensamentos e acções do presente que o eu é agora para si próprio, e assim será o mesmo eu na medida em que a mesma consciência se possa alargar a acções passadas ou futuras; e não seria duas pessoas, pela distância temporal ou pela alteração da substância, tal como um homem não seria dois homens por vestir hoje roupa diferente da de ontem, independentemente de ter dormido muito ou pouco tempo: a mesma consciência une essas acções distantes numa mesma pessoa, independentemente das substâncias que contribuíram para a sua produção.

Possuímos algumas provas nos nossos próprios corpos que demonstram que isto se passa desta forma; todas as partículas dos nossos corpos são uma parte integrante de nós próprios – quer dizer, parte do nosso eu consciente e pensante – enquanto unidas de forma vital a este eu (self) pensante e consciente, de tal forma que sentimos quando são tocadas, afectando‑nos, de forma que se tem consciência do bem ou do mal que lhes acontece. Logo, qualquer pessoa considera que os membros do seu corpo são parte dela própria; sente por eles simpatia e preocupação. Corte‑se‑lhe uma mão, separando‑a assim da consciência que tínhamos (...) das suas afecções e ela, a mão, é tão parte de si mesmo, para o seu proprietário, do que a partícula material mais afastada. Portanto, vemos que a substância, na qual o eu pessoal (personal self) consistia num determinado momento, pode variar num outro momento sem se alterar a identidade pessoal, e não existirá qualquer dúvida de que seja a mesma pessoa, embora lhe tenham sido cortados os membros que ainda agora faziam parte integrante de si. (…)

Assim, sem qualquer dificuldade, podemos ser capazes de compreender a mesma pessoa aquando da ressurreição, embora num corpo não exactamente igual na estrutura ou nas partes que ele tinha neste mundo (…). Se a alma de um príncipe, transportando consigo a consciência da vida passada de príncipe, penetrar e habitar o corpo de um sapateiro, mal este tenha sido abandonado pela sua própria alma, todos poderíamos verificar que ele seria a mesma pessoa que o príncipe, apenas responsável pelas acções do príncipe; mas quem é que diria que era o mesmo homem? (…)

Portanto, o que quer que possua a consciência de acções presentes e passadas é a mesma pessoa, à qual ambas pertencem. Se tivesse a mesma consciência de ter visto a Arca e o dilúvio de Noé, do que aquela que tenho de ter visto uma inundação do Tamisa no Inverno passado ou de escrever neste momento, não poderia ter quaisquer dúvidas que eu, que agora escrevo isto e que vi a inundação do Tamisa no Inverno passado e que presenciei o dilúvio no cataclismo global, seria o mesmo eu (self) – coloque‑se esse eu (self) na substância que se desejar – tal como eu – que agora escrevo isto – sou o mesmo neste momento (quer eu seja todo constituído por uma só substância, material ou imaterial, quer não) tal como o era ontem. Pois, em relação a esta questão de ser o mesmo eu, não interessa se este eu do presente é constituído pela mesma ou por substância diferentes, e estou tão envolvido e sou tão justamente responsável por uma acção que foi realizada há mil anos, a mim agora atribuída por esta consciência de si, tal como pelo que fiz há um minuto atrás.

(…)

Isto pode‑nos demonstrar em que consiste a identidade pessoal: não na identidade da substância, mas, como já referi, na identidade da consciência. Partindo deste pressuposto, se Sócrates e o presidente da Câmara de Quinborough concordarem, serão a mesma pessoa; se o mesmo Sócrates não partilhar da mesma consciência quando está acordado e a dormir, então Sócrates não é a mesma pessoa quando está acordado e quando dorme. E punir o Sócrates acordado por aquilo que o Sócrates adormecido pensou e do qual Sócrates acordado nunca teve consciência seria tão errado como castigar um irmão gémeo pelo que o seu irmão fez, e do qual o segundo nada sabia, baseando‑se apenas no seu aspecto exterior que era tão parecido que não podiam ser diferenciados, uma vez que já temos visto gémeos como este.

Contudo, poder-se-á ainda objectar o seguinte: suponhamos que perco completamente a memória em relação a certas partes da minha vida, de tal forma que está para além das minhas possibilidades recuperá‑las, portanto, talvez nunca mais volte a ter consciência das mesmas; mas não sou eu a mesma pessoa que praticou essas acções, que teve esses pensamentos, dos quais um dia tive consciência, embora neste momento os tenha esquecido? A esta questão respondo que aqui temos de ter em conta a que é que a palavra eu (I) é aplicada, o que, neste caso, é apenas ao homem (…). Mas se for possível ao mesmo homem ter consciências distintas e incomunicáveis em diferentes momentos, não temos quaisquer dúvidas de que o mesmo homem constituiria diferentes pessoas em diferentes momentos (…). As leis humanas não punem o louco por causa das acções do homem sensato, nem punem o homem sensato devido às acções que o louco praticou – deste modo, faz dos mesmos duas pessoas (…) É impossível fazer com que a identidade pessoal consista em algo mais que não seja a consciência, ou que vá para além daquilo que a consciência consegue atingir. (…) A identidade pessoal não pode ser colocada em nada mais do que na consciência (que é a única coisa que constrói o que denominamos como eu) sem nos envolvermos em grandes absurdos. (…) Nada para além da consciência pode unir existências distantes numa mesma pessoa; a identidade da substância não o fará, porque qualquer que seja a substância, qualquer que seja a sua forma, sem consciência não há pessoa (…). Se pudéssemos supor duas consciências distintas e incomunicáveis a actuar no mesmo corpo, uma a actuar constantemente durante o dia e a outra durante a noite e, por outro lado, a mesma consciência a agir em dois corpos em intervalos, pergunto se no primeiro caso, quer de noite quer de dia, o homem não seria duas pessoas diferentes, tal como Sócrates e Platão o são? E se no segundo caso não existiria uma pessoa em dois corpos distintos, tal como um mesmo homem é o mesmo, vertido de duas maneiras diferentes? (…) O eu não é determinado pela identidade ou diversidade da substância, da qual não pode ter a certeza, mas apenas pela identidade da consciência.”

 

Locke, An Essay concerning Human Understanding II, XXVII (cf. trad.port., Ensaio sobre o Entendimento Humano, Volume I, Lisboa, Gulbenkian, pp.436‑457).

 

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