BUDISMO
E IDENTIDADE PESSOAL
Paulo
A. E. Borges
(Universidade
de Lisboa)
Se há temas que
permitem ir ao cerne das questões, pelo próprio contraste entre os termos que
equacionam, este é um deles: Budismo e
identidade pessoal. Não tanto, todavia, porque o chamado budismo se
constitua pela negação ou pela aspiração à anulação da chamada “identidade
pessoal”, conforme vulgarmente se pensa. Na verdade, se quisermos ser
rigorosos, de um rigor que não se acomode a séculos de interpretação do budismo
segundo perspectivas cultural e psicologicamente redutoras, como os conceitos e
valores da consciência ocidental de matriz helénica e judaico-cristã, ou os
medos e expectativas do sujeito egocêntrico, é bem diferente o que encontramos
na visão experiencial e no ensinamento do Buda, ou no Dharma do Buda, expressão que preferimos à de budismo, de origem ocidental
e muitas vezes ainda hoje estranha aos seus praticantes orientais, que em seu
lugar utilizam tradicionalmente uma expressão que podemos traduzir como
“ciência interior” ou “ciência do espírito” [1].
Com efeito,
de acordo com o próprio sentido da palavra Buda,
que designa o estado Desperto ou Iluminado, o estado de reconhecimento da
natureza última dos fenómenos e da mente, pela eliminação de todos os
obscurecimentos emocionais e conceptuais permitindo o natural des-envolvimento
de todas as qualidades cognitivas e afectivas - conforme a etimologia da
palavra tibetana para Buda, San-gye [2] - , o
que o chamado budismo visa é um estado incondicionado por qualquer modo de
ilusória dualidade cognitiva e afectiva, em termos de separação e relação entre
sujeito e objecto, ou seja, a experiência disso que, na perspectiva ainda da
mente condicionada, se designa como Iluminação e Libertação perfeita. A
Natureza de Buda, natureza última e comum de todos os fenómenos e da mente, é
assim absolutamente livre de todas as delimitações e antinomias conceptuais e
verbais, metafísicas e onto-lógicas. Neste sentido, ela é alheia a todos os
conceitos estruturadores do pensamento discursivo, nomeadamente os de ser e não
ser, mesmo e outro, identidade e alteridade. Mas, contrariamente ao Princípio
primeiro das metafísicas místicas orientais e ocidentais, como o Brahman hindu,
o Uno/Bem de Plotino, o Inefável de Damáscio ou, de um modo geral, o Deus
transcendente da revelação judaica e cristã ou das derivadas metafísicas de matriz
neo-platónica, que tende a ser considerado como um Absoluto separado da
experiência da mente e do mundo, algo que é em si e por si embora para além do
próprio ser e de todas as determinações antinómicas do intelecto, a Natureza de
Buda, na relatividade da sua expressão, é vacuidade (sânscrito: sunyata), no sentido, muito preciso, da
ausência de essência, existência ou entidade intrínseca, em si e por si, ou
seja, de substancialidade, não só de todas as coisas, fenómenos e sua correlata
consciência, mas da própria vacuidade, a qual, ela mesma, é vazia ou desprovida
de existência própria, não sendo nem não sendo, mera designação da verdadeira
natureza de cada uma e de todas as coisas na sua universal aparição em
interdependência [3]. Alheia aos extremos conceptuais
do ser e do não ser, da existência e da não existência, a Natureza de Buda, no
seu aspecto de vacuidade, não é uma entidade metafísica positiva, negativa ou
inefável, mas a verdade das coisas-fenómenos materiais e mentais, o seu tal qual ou talidade (sânscrito: tathata),
inerente à sua manifestação interdependente, sem qualquer constituição
ontológica autárquica, autónoma e própria. Neste sentido, a Natureza de
Buda-vacuidade é a verdade absoluta e última do mundo, da totalidade da
manifestação, inseparável de cada uma e de todas as coisas. Como se diz na
versão tibetana do Sutra do Coração do
Conhecimento Transcendente: “As formas são vazias; a própria vacuidade são
as formas; a vacuidade não é diferente das formas; as formas não são diferentes
da vacuidade” [4].
Deste modo,
por uma busca com recurso à experiência sensível, à análise racional, ao
recolhimento meditativo e à intuição sapiencial, livres de todos os pressupostos conceptuais, como os do
substancialismo ingénuo, idealista ou realista, que reifica e ontifica à priori
os termos da relação cognitiva, sujeito e objecto, o chamado budismo procede de
uma experiência directa e não conceptual do real como algo de igualmente
irredutível ao princípio de identidade e à sua negação, que seriam assim estranhos
à natureza autêntica das coisas, por mais estranho que isso possa parecer a
milenares e dominantes hábitos mentais. E, se bem que o âmago da experiência
dos Budas seja a Iluminação, a visão das coisas tais como são, sem as ilusórias
características, discriminações e limites da mente conceptual, natural é que,
para que essa Iluminação naturalmente aconteça, ou melhor, se re-conheça, o
ensinamento ou palavra dos Budas, o Dharma, vise eliminar pela raiz os
obstáculos a tal reconhecimento, ou seja, os obscurecimentos conceptuais e
emocionais que velam a natureza última da mente e dos fenómenos. Ora a raiz
destes é exactamente a crença irracional e irreflectida, tornada um hábito
mental e emocional inveterado, na substancialidade do eu e dos fenómenos, na
sua essência, existência e distinção em si e por si, na sua consistência e
subsistência intrínseca, separada da totalidade interdependente e dinâmica da
manifestação. Por mais subtis que possam ser as formas que essa crença assume,
nomeadamente as que integram a relação e a alteridade como constitutivas dessa
substancialidade, ela persiste como o inquestionado e sacrossanto pressuposto
teórico e prático não só do senso comum, como da maior parte das doutrinas
científicas, filosóficas e religiosas que postulam a existência de um
fundamento primeiro da constituição do mundo, ideal, real, espiritual, material
ou transcendente unificador de todos os contrários. De óbvias origens
religiosas e metafísicas, não é de desprezar a sua radicação psicofisiológica.
Dir-se-ia que a obscura experiência psicofisiológica da existência independente
do sujeito e dos objectos percepcionados, como unidades substanciais e simples,
se projecta, reforça e cristaliza na milenar ideia metafísica e religiosa de um
princípio primeiro e último, uno, único e absoluto, de uma causa incausada e
transcendente de onde tudo procede, de um fundamento originário do ser e do
pensar, consoante as conhecidas tendências teístas, monistas e monoteístas da
experiência humana que pontuam de Oriente a Ocidente. Se tenho uma experiência
do corpo e da mente como algo de meu, de próprio, como um mesmo ou algo que
pertence a um mesmo por oposição e em relação a um outro, como uma entidade
separada e autónoma, natural é que projecte essa experiência na análoga
representação de um ser a partir do qual tudo procede, eu e todas as coisas [5],
garantindo, por vezes apenas a mim e aos da minha espécie, num antropocentrismo
grosseiro, a protecção neste mundo e a vida eterna no outro. A questão é que o
facto de tal experiência da individualidade psicofisiológica se ter tornado
habitual e quase única no presente ciclo histórico-cultural da humanidade
ocidental e ocidentalizada não implica que ela seja necessária, normal, natural
e verdadeira, parecendo-nos óbvio que não é jamais uma experiência feliz, como
o prova o facto de os momentos mais gratificantes da nossa vida, e que nos
deixam mais saudosos de uma plenitude entrevista, serem aqueles em que, por
virtude de um grande amor e uma grande entrega, ou por via de uma absorção
estética ou contemplativa, nos esquecemos do que julgamos ser e descobrimos uma
dimensão mais ampla e iluminada...
A suposição da identidade pessoal
radica, como a origem e a história do termo pessoa
indicam – recorde-se a definição de Boécio: “Substância individual de natureza
racional” [6] - na
suposição da identidade hipostática ou substancial [7], ou
seja, na suposição de haver um suposto,
algo que verdadeiramente sub-está ou sub-jaz (cf. o grego upokeimenon e o latino subiectum)
“como substrato por si subsistente, suporte e base de sustentação dos
atributos” [8], nos seres e nas coisas.
No decurso dos debates teológicos trinitários, e enquanto distinta da essência
(ousia), pela sua individuação e existência independente, a
hipóstase (upostasis)
torna-se equivalente a proswpon, persona, pessoa.
Para que isso acontecesse, todavia, o termo grego proswpon teve
de conhecer o processo de emancipação “do significado de simples papel, função,
face, personagem de teatro” [9], que
o seu equivalente latino, persona, já
conhecera. Residindo aqui um aspecto fulcral da questão, que não podemos agora
aprofundar, tudo parece depender da interpretação da etimologia e do sentido de
proswpon e persona, máscara, na experiência teatral antiga. Designa, de acordo com o
verbo personare, a qualidade positiva
da máscara, quer na intensificação do
som da voz que através dela ressoa, quer na representação e figuração de uma
identidade mais digna que a do actor, a da sua personagem, muitas vezes divina [10], ou,
pelo contrário, indica antes o carácter fictício e enganador da personagem,
papel ou função representados, consoante o adjectivo personatus, a, um, que identifica o pessoado como um mascarado que
se disfarça enganando, sendo a pessoa/máscara a figura que dissimula o rosto
autêntico, ou que, fazendo-se passar por real, dissimula a dissimulação em que
consiste ? Desenvolvendo esta hipótese, acrescentaríamos: dissimulando como ser
o seu parecer, como númeno o seu fenómeno, como determinação ôntica e real a
sua manifestação teatral e carnavalesca, lúdico/i-lusória ?
Compreender-se-ia, neste sentido, não
só a dupla acepção do personne
francês, que também significa “ninguém”, como toda uma galeria de sublimes
“figuras da insignificância”, como diz Stanislas Breton, mas por isso mesmo da
autenticidade, que preenchem o imaginário literário ocidental, nessa história
paralela à da filosofia e da religião dominantes onde, a par da mais ousada
mística, como que se arranca a máscara
do personalismo metafísico e, gritando-se “O Rei vai nu!”, se denuncia a
va(n)idade do seu aparente triunfo: desde o outis
grego, “Ninguém”, auto-nomeação de
Ulisses quando o cíclope Polifemo lhe pergunta o nome [11], a
ecoar o ouden ou meden designativos do inefável “além do ser e da essência” na
neo-platónica metafísica da a-determinação absoluta, abissal fundo de todos os
possíveis, ao Nemo latino e aos Nobody e Niemand anglo-saxónicos e germânicos dos séculos XV e XVI [12], até
à articulação “Todo o Mundo”-“Ninguém” em Gil Vicente [13], ao
“Não sou ninguém” do parvo vicentino [14] e
aos seus sucessores em Teixeira de Pascoaes [15] e
Fernando Pessoa, como um impessoal fundo da ilimitada auto-figuração
imaginativa das possibilidades de ser persona:
“Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa não poderia
imaginar” [16].
É neste sentido que o Dharma do Buda,
que só desde o século passado começa a ser rigorosamente estudado no Ocidente e
a libertar-se das interpretações românticas,
pessimistas e teosóficas do século XIX [17],
assume uma notável contemporaneidade no que respeita à presente situação
histórica da consciência ocidental, com ele convergente na medida em que
procede à crítica, desconstrução e dessubstancialização da metafísica e do
sujeito, abandona o “fundacionalismo filosófico” e assume o desafio de aprender
“a viver num mundo sem fundações” [18]. A
par de outras inflexões de paradigma, como a busca de superação do
teoantropocentrismo numa visão holística e cósmica, numa via mediana além do
absolutismo dos fundamentos e do niilismo da sua mera negação sem alternativa,
dir-se-ia que o Dharma do Buda se constitui hoje como referência incontornável
na tentativa da consciência ocidental recordar isso que esqueceu ou negou nas
origens da sua história diurna, que é simultaneamente a prospectiva de outras
possibilidades de futuro, reconhecida a crise e esgotamento dos paradigmas e
caminhos até hoje dominantes.
Mas percorramos alguns textos
fundamentais da tradição do Buda, seleccionados dos seus três ciclos de
Ensinamento e dos três Veículos aí expostos em função das qualidades e
potencialidades dos seus destinatários, pequenas, médias e superiores: o
Hinayana, ou Pequeno Veículo (hoje também designado como “veículo de base”), o
Mahayana, ou Grande Veículo, e o Vajrayana, ou Veículo de Diamante. Neles
destacaremos apenas as passagens que permitam elucidar mais directamente a
questão da identidade pessoal.
No primeiro discurso proferido,
quarenta e nove dias após a Iluminação, dito de Benares, em pali o Dhammacakkapavattanasutta, o Sutra da Roda da Lei, verdadeiro coração
do Dharma, o Buda enuncia a primeira das quatro nobres verdades, sobre a
omnipresença de dukkha na existência
e experiência condicionada de todos os seres [19]. Dukkha, inicial e habitualmente
traduzido por “sofrimento” ou “dor”, é um termo que na verdade não tem
equivalente nas línguas ocidentais, implicando noções mais vastas e profundas
como as de insatisfação, mal-estar, frustração, imperfeição, impermanência,
conflito, vazio e não substancialidade [20]. Se dukkha está presente no nascimento, na
doença, na velhice e na morte, no “estar unido ao de que não se gosta”, no
“estar separado do que se gosta” e no “não ter o que se deseja”, tudo se resume
em que “os cinco agregados de apego são dukkha”
[21]. Os
cinco agregados, ou skandhas, em
sânscrito [22], designam as energias
psicofísicas em constante mudança e interdependência cuja associação provisória
compõe aquilo que na experiência não iluminada, condicionada por estes mesmos
agregados, surge como um “ser”, um “indivíduo” ou um “eu”. A sua aparente
unidade simples é assim um composto de vários elementos que só existem na sua
interacção e não de modo autónomo. Se os apresentamos aqui pela ordem
tradicional, convém ter presente que a sua manifestação é simultânea e que a
presença de um implica a de todos os outros: 1 - formas (rupa), físicas e mentais, exteriores e interiores, incluindo os
seis objectos dos órgãos dos sentidos físicos e mental e estes mesmos órgãos; 2
- sensações (vedana) físicas e mentais
dessas formas, agradáveis, desagradáveis ou neutras; 3 - percepções (sanna), que reconhecem, discernem e
identificam os objectos da experiência física e mental; 4 - formações mentais,
kármicas ou volicionais (samskara),
que determinam a actividade positiva, negativa ou neutra da mente e elaboram
assim a visão/experiência individual do mundo, sendo a cada instante o efeito
das volições e acções passadas e a causa das presentes, cujo efeito é por sua
vez causa das futuras; é por estas formações que desde sempre é construído,
consciente ou inconscientemente, o modo agradável, desagradável ou neutro de
manifestação dos objectos-formas na sensação, na percepção e na consciência; as
referidas formações compreendem assim “todos os automatismos habituais de pensamento,
sentimento, percepção e acção”; 5 - consciências, em número de seis, conforme
os seis órgãos e objectos dos sentidos físicos e mental, unificadas na
consciência (vijñana), instância não
autónoma que apenas efectua a síntese da experiência dos demais agregados em
termos da dualidade que a instaura como um sujeito conhecedor de um objecto [23].
Aqui concorre e daqui decorre a ideia, adventícia e falsa, da existência de um
“eu”, ou de uma entidade intrínseca, naquilo que não é senão a associação
provisória, interdependente e em mutação constante de cinco forças e funções
psicofísicas. Na verdade, a ideia de “eu” não é senão uma das cinquenta e duas
formações mentais elaboradas pelo quarto agregado [24],
efeito e causa da projecção da mente, da palavra e do corpo no domínio da
causalidade kármica, ou seja, no domínio da acção dualista, condicionada por e
condicionadora de experiências, externas e internas, de separação e relação
entre sujeito e objecto [25].
É neste sentido que, regressando ao Sutra da Roda da Lei, “os cinco
agregados de apego são dukkha” [26]. Dukkha, em primeiro lugar, na acepção,
mais profunda, de que são vazios de existência própria, de que são
insubstanciais, não existindo em si e por si, como uma entidade sólida e
permanente, mas antes como um fluxo contínuo e sempre diverso de experiências
psicofísicas, sendo uma delas, que se torna habitual e predominante entre
muitas possíveis, a de haver um seu sujeito, que fosse o seu suporte único e
imutável ou que de algum modo lhes conferisse uma unidade permanente, sem que
isso corresponda a mais do que a uma volição/noção inadequada à realidade, se
bem que, segundo os contextos histórico-culturais, adequada ao mundo
convencional da linguagem, das representações e das práticas humanas. Em
segundo lugar, os cinco agregados são dukkha
na medida em que, havendo “apego” a eles, ou seja, havendo adesão à ideia da
sua existência em si e por si, o suposto sujeito que resulta dessa adesão, isto
é, a experiência de haver sujeito que daí resulta, não pode ser senão uma
experiência infeliz, com a insatisfação, o mal-estar, a frustração e o conflito
inerentes a supor-se algo de permanente e idêntico, independente e substancial,
onde não há senão impermanência e mutação, interdependência e vacuidade-insubstancialidade.
Havendo adesão e apego à existência em si e por si das formas-objectos, das
sensações, das percepções, das formações mentais e da consciência, a
experiência psicosensorial do mundo, nas suas modalidades agradável,
desagradável e neutra, tende a esquecer-se como algo que é construído na
construção da própria ideia/experiência de haver sujeito e tende assim a
solidificar-se, a reificar-se, como se fosse algo de objectivo, real e
permanente. O positivo, o negativo e o neutro surgem como qualidades
objectivamente inerentes aos objectos da percepção quando na verdade são a
projecção da mente que, não o reconhecendo, deseja, rejeita ou deixa na
penumbra da desatenção as suas próprias ilusões. Pelo apego aos cinco agregados
e à ideia de constituírem um sujeito independente reforçam-se assim as três
emoções de base da mente não iluminada – desejo possessivo, aversão e
indiferença - que, como veremos, originam as acções e reacções estruturadoras
de todos os estados condicionados e dolorosos do ciclo das existências ou samsara.
Se questionássemos, neste momento, quem se ilude e apega aos agregados e à ideia/experiência de haver
um sujeito independente que seja o protagonista e proprietário da experiência
de si e do mundo, a resposta do Buda, dos Budas, não dogmática mas movida pelo
pragmatismo da compaixão, pois sempre em função das capacidades de entendimento
de quem põe a pergunta e do que lhe for mais benéfico ouvir nesse preciso
instante, pode ser vária, incluindo o silêncio radical [27].
Pela nossa parte, diríamos que esta questão está condicionada pela mesma ilusão
e apego ao pressuposto de haver um sujeito dos actos e das experiências, ou
seja, neste caso, um sujeito do próprio apego à ideia de haver um sujeito, um
sujeito da própria ilusão de haver sujeito. Ilusão inerente a esse senso comum
arraigado no pensamento, sobretudo ocidental, enquanto crença e juízo ingénuos
de que a existência de pensamento e actividade implica a de um pensador e
agente, humano ou divino, ou de que ser seja ex-istir e ser sujeito. Ilusão
que, pretendida verdade filosófica nas tão vulgares certezas de Santo Agostinho
e Descartes, fundadas na suposta auto-evidência do cogito [28],
persiste no transcendentalismo de Kant e Husserl, que não ousa estender a epoché ao próprio sujeito transcendental
[29].
Aqui, de facto, o pensamento budista pratica desde o início uma fenomenologia
sem qualquer pressuposto transcendental. Como diz Buddhaghosa: “Só o sofrimento
existe, mas não se encontra nenhum sofredor; / Os actos são, mas não se encontra
actor” [30]. Ou
ainda o monge Walpola Rahula: “Não há motor imóvel por detrás do movimento.
(...) Não há pensador por detrás do pensamento. O pensamento é ele próprio o
pensador. Não podemos deixar aqui de notar como esta ideia budista se opõe
diametralmente ao “cogito ergo sum”
cartesiano: “Eu penso, logo existo”” [31].
Na verdade, regressando ao Sutra da Roda da Lei, a segunda Nobre Verdade indica que a causa
dessa dukkha, agora apenas no seu
aspecto de sofrimento, inerente aos “cinco agregados de apego”, é a “sede” (tanha, em pali, trshna, em sânscrito). “Sede” no sentido de um desejo ávido e
insaciável que assume três aspectos: sede dos prazeres sensoriais; sede da
existência e do devir; sede da não-existência ou auto-aniquilação [32].
“Sede” que assim, em qualquer dos casos, supõe a ideia/experiência de haver
sujeito, indissociável do desejo ávido da sua gratificação positiva, da sua
persistência ou da sua gratificação negativa, na medida em que o desejo de não
ser é ainda um desejo egocêntrico de não sofrer, que denuncia o apego à ideia
de existência própria. Mas como surge essa ideia/experiência de haver sujeito,
ou, afinal, o desejo de o haver ? Se
no Sutra da Roda da Lei se põe a
tónica nesta “sede” como causa de dukkha,
outros textos onde se fixou o ensinamento do Buda, como aqueles relativos aos
doze elos da produção condicionada, ou interdependente, atribuem a origem da
existência condicionada à “ignorância” (avidya)
[33]. É
pela “ignorância” que se produzem as “formações kármicas”, as tendências
inconscientes ou semi-conscientes que dão forma à percepção global do mundo e
impulsionam a agir de modo positivo, negativo ou neutro, e é por elas que se
produz a “consciência” dualista, propulsionada de experiência em experiência e
de existência em existência. A “consciência” condiciona o “nome e forma”, ou os
cinco agregados, que condicionam as “fontes dos sentidos”, que condicionam o
“contacto”, que condiciona a “sensação ou sentimento”, que condiciona a “sede
ou desejo”, que condiciona a “preensão ou apego”, que condiciona o “devir ou
existência”, que condiciona o “nascimento ou renascimento”, que condiciona a
“velhice e morte”. Cessando a “ignorância” cessam as “formações kármicas”,
cessando estas cessa a “consciência” dualista, e assim sucessivamente, até à cessação
do nascimento”/”renascimento” e portanto da “velhice e morte” [34].
Como se constata, a “consciência” dualista, imediata condicionante dos cinco
agregados da suposta individualidade, é por sua vez condicionada por essas
tendências obscuras, no limiar entre a inconsciência e a consciência, que são
as “formações kármicas”, como estas o são pela “ignorância”. A
ideia/experiência/desejo de existir tem assim uma proto-história que
progressivamente se afunda no irracional e no desconhecido, primeiro na penumbra
das pulsões e depois na treva da cegueira (cf. a sugestão etimológica de avidya, a não visão, termo sânscrito
traduzido por “ignorância”).
Mas em que consiste esta “ignorância” ? É o momento de
passarmos ao segundo ciclo do ensinamento do Buda, considerando alguns textos
do Mahayana, onde se considera que o Dharma do Buda passa dos sentidos
provisórios ou interpretáveis ao sentido definitivo [35], ou,
de outro modo, da verdade relativa, condicionada pelos limites do intelecto
conceptual, à verdade absoluta. No Sutra
do Rebento de Arroz o Buda afirma: “Ó monges, todo aquele que vê a produção
interdependente vê o Dharma. Todo aquele que vê o Dharma vê o Buda” [36].
Tentemos pois, agora mais de perto, e olhando melhor, ver o Buda... Se a
“produção interdependente” tem dois aspectos, relativos aos fenómenos
exteriores e interiores, interessa-nos aqui fundamentalmente o segundo. Na
medida em que depende de “causas”, a “produção interdependente” verifica-se
pelo encadeamento constante dos doze elos enunciados, que, numa comparação,
“desde tempos sem começo passam à imagem da corrente ininterrupta de um rio” [37], da
“ignorância” até à “velhice e morte”. Na medida em que depende de “condições”,
a “produção interdependente” verifica-se na combinação de seis elementos, a terra,
a água, o fogo, o ar, o espaço e a consciência, composta das cinco consciências
sensoriais e da consciência mental dualista, o que manifesta os cinco agregados
da individualidade psicofísica [38]. Ora
a “ignorância “ no que respeita às “condições” determina a “ignorância” no que
respeita às “causas”. Vejamos, mediante uma transcrição do texto em apreço: “O
que é a ignorância ? É o que capta os seis elementos como uma coisa única, como
uma globalidade, o que os concebe como eternos, consistentes, imutáveis,
agradáveis, como um “si”, um ser dotado de espírito, um ser vivo, um indivíduo,
um criador, um macho, uma pessoa, um descendente de Manu, um ser humano, um
denominado “eu”, um suposto “meu”, em suma, toda uma diversidade de equívocos:
eis o que se chama “ignorância”. Da presença de uma tal ignorância decorrem o
desejo, a cólera e a indiferença em relação aos objectos. Esta atracção, esta
aversão e esta indiferença aos objectos constituem o que se chama “formações
kármicas condicionadas pela ignorância”. O que toma conhecimento dos diferentes
aspectos das coisas existentes é a consciência” [39].
Segue-se a já conhecida enumeração dos demais elos da produção interdependente.
Mais adiante, o sutra define a “ignorância” como este “desconhecimento que, não
compreendendo o real, o interpreta falsamente”. Dessa má interpretação decorrem
as formações kármicas indutoras de acções meritórias, demeritórias ou não
indutoras de qualquer movimento. Destas resultam, respectivamente, consciências
tendentes ao meritório, ao demeritório ou à inércia [40].
Se os doze elos da produção interdependente se manifestam em
conjunto, como o movimento constante das águas de um rio, há todavia um deles
que, sendo implícito em todos os demais, como a instância da qual depende a
contínua reiteração de todo o processo, uma vez anulado, pode esgotar o fluxo
dessa corrente, ou seja, o fluxo de dukkha.
É a “ignorância”, a qual em verdade não consiste em nada de real e positivo,
antes num não reconhecimento das coisas como são, que leva a uma versão errónea
das mesmas. Em que consiste essa versão falsa ? Exactamente em interpretar os
componentes psicofísicos, múltiplos, impermanentes e interdependentes, jamais
idênticos a si mesmos um único instante, tal o rio de Heraclito [41],
como uma unicidade, um todo, uma entidade, um ser individual, espiritual e
vivo, uma pessoa, um homem, um eu que se possui a si mesmo, eterno,
consistente, permanente e desejável enquanto tal. Ou seja, exactamente isso que
cada um de nós julga ser...
Se, no mesmo sutra, se diz que os doze elos da produção
interdependente se podem resumir a “quatro causas de actividades”, a
ignorância, a sede ou as paixões, o karma e a consciência, afirma-se, numa
comparação, que “o karma e as paixões produzem a semente da consciência”, sendo
ao mesmo tempo o karma um “húmus” para ela. Quanto à sede, “ela impregna a
semente da consciência”, sendo a ignorância que a “semeia”. Sem estas
“condições causais, a semente da consciência não se desenvolverá”, mas com elas
entrará numa “matriz materna”, onde manifestará o “rebento do nome e da forma”,
ou seja, a aparente individualidade psicofísica. Esta surge assim num processo
que desde o início não é consciente, intencional e teleológico, onde as causas,
as condições e o resultado não sabem nem pretendem sê-lo, como claramente
afirma o texto. Por outro lado, não se pode dizer que a aparente
individualidade se crie a si mesma, que seja a criação de outro, como “um Deus
todo poderoso” ou a “natureza”, ou as duas coisas simultaneamente. Produto de
causas e condições, desde a “ignorância” à união do pai e da mãe num período
lunar favorável, a “semente da consciência” – “se bem que fundamentalmente sem
proprietário, sem pertença, semelhante ao céu, totalmente fantasmagórica”,
“inapreensível” e como uma “ilusão” – produz por sua vez a aparente
individualidade dos agregados [42].
É neste sentido, entendendo-se o suposto indivíduo como algo
que se manifesta mas que não existe realmente, que se pode compreender a
sequência do sutra, radicalmente depuradora de muitas concepções equívocas
dentro do próprio budismo. Não há assim, nas palavras do Buda, “nada que
transmigre deste mundo para um outro mundo”, “ninguém que transmigre na morte e
renasça algures”, embora, não faltando “nenhuma das causas e condições, os
frutos do karma se manifestem claramente”, tão claramente como o “reflexo de um
rosto num espelho” ou do disco lunar numa superfície aquática: embora nada se
transfira para esses lugares, a aparência surge aí bem nítida [43].
Em que consiste, afinal, a “produção interdependente
interior” ? Ela tem cinco aspectos: 1 - “não é eterna”, no sentido de possuir
uma identidade própria e imutável, pois “os agregados do momento da morte” e os
“que pertencem ao nascimento seguinte” não são os mesmos; 2 - “não é um nada”,
no sentido de designar uma pura descontinuidade, sem qualquer relação entre os
seus termos, porque não é por causa da cessação nem da não-cessação dos
primeiros agregados que os segundos aparecem, nascendo os segundos no mesmo
instante da morte dos primeiros, como um prato da balança “sobe quando o outro
desce”; 3 - “não é transmigração [duma essência]” porque “seres animados de
espécies diferentes manifestam renascimentos da mesma espécie” (e vice-versa, no
plano da ilusão não reconhecida como tal); 4 - nela uma “pequena causa” (acção)
pode originar “um grande efeito” kármico; 5 - há nela uma “continuidade no
semelhante”, uma vez que os efeitos correspondem às causas. Conforme a seguir
se explicita, a sua natureza é a de algo que, se bem que “incessante”, na
verdade não corresponde a nada de absolutamente real. Ela é assim “inexistente,
sem conteúdo nem substância; desprovida de essência; tal uma doença, um
abcesso, um sofrimento, um vício; impermanente, dolorosa, vazia, desprovida de
si” [44].
Mas o mais importante são as consequências do seu efectivo
reconhecimento como tal. Diz o Buda que quem assim verdadeiramente a vê, “tal
qual”, “não se questiona mais a propósito do passado: “Eu era eu no passado ou
eu não era eu ? Que era eu no passado ? Como era eu no passado ?”. Ele assim
não pensa mais no que o precedeu. Do mesmo modo, não imagina o que se vai
seguir questionando-se: “Eu serei eu no futuro ou eu não serei eu ? Que serei
eu no futuro ? Como serei eu no futuro ?”. Quanto ao presente, ele já não
reflecte nele pensando: “O que é isto ? Como é isto ? Existindo isto, o que se
tornará aquilo ? De onde vêm estes seres animados ? Onde irão eles depois da
sua morte ?” [45]. Ou seja, como no início
do sutra se anunciou, quem vê a produção interdependente vê o Dharma e quem vê
o Dharma vê o Buda. Quem vê o Buda vê a vacuidade do questionador e logo a das
atormentadoras e irrespondíveis questões que o supõem, aquelas mesmas que
emergem na consciência humana e são o alento da própria busca filosófica e
religiosa, decerto legítimas e úteis enquanto movidas pela busca da verdade,
porém dissolvidas como ilusórias pela “sabedoria”, a suprema das virtudes, que
assim traz ao espírito a paz profunda [46].
Daí a exortação final do sutra, a que se abandonem como
erradas as diversas “opiniões” dos “ascetas e brâmanes deste mundo”, como as
que afirmam “a existência do eu”, “a existência dos seres animados”, as que
“afirmam a vida”, “a existência da pessoa ou ainda o carácter benéfico das
cerimónias”. Cortadas “pela raiz”, não renascerá mais uma visão falsa das
coisas, libertando-se doravante os “fenómenos” - exteriores e interiores, como
aqueles interpretados como o “eu” e seus objectos, diríamos nós - dos conceitos
de “nascimento” e de “cessação”, de algo que realmente surge e que realmente se
extingue. Finalmente, o Iluminado, “o incomparável Instrutor dos deuses e dos
homens”, profetiza que todo aquele que assim se equipe com “a paciência a
respeito do real penetrará a fundo e verdadeiramente a produção
interdependente” e “tornar-se-á um Buda autêntico e perfeito” [47]. A
paciência (kshanti), quarta virtude
transcendente do Mahayana – aqui no sentido último em que consiste em não temer
e suportar a verdade, não rejeitando o Dharma por mais que ele, por exemplo nos
ensinamentos sobre a vacuidade, transcenda ou perturbe os nossos conceitos
habituais [48] - , abre-se para a sabedoria e esta para a
Iluminação plena, ou seja, para o estado de Samyaksambuda.
Constatamos assim que a compreensão profunda da Segunda
Nobre Verdade, sobre a origem de dukkha,
conduz naturalmente à Terceira e Quarta Nobres Verdades, respectivamente
referentes à “cessação” (nirodha) de dukkha e ao “caminho” (marga) que aí conduz [49]. Isto
porque compreender e experimentar verdadeiramente, não de forma meramente
intelectual, que na origem de todo o sofrimento está um mal-entendido,
residente em supor-se uma existência e id-entidade intrínsecas onde nada há que
corresponda realmente a tais conceitos, implica desde logo a “cessação” das
causas de dukkha - a “ignorância” e a
“sede” ou “desejo ávido” egocentrado, o desejo de auto-gratificar-se na
existência ou na aniquilação - , mediante a sabedoria que culmina o “óctuplo
caminho” enunciado pelo Buda no Sutra da
Roda da Lei. É assim que o nirvana
(“extinção”), seja entendido como o equivalente de nirodha ou como o seu resultado, é definido de modo negativo, não como a extinção do quer que seja de
real, que viesse anular, mas como a extinção da ilusão de haver algo que em
verdade nunca existiu, não tendo alguma vez surgido e logo não podendo
alguma vez extinguir-se.
Compreender profundamente a natureza enganadora da
“ignorância” (avidya), reconhecendo a
vacuidade do suposto de substancialidade no eu e nos fenómenos, é já um
exercício de “sabedoria” (prajna)
que, embora no seu aspecto negativo, tem por resultado a inibição das formações
kármicas – desejo possessivo, aversão e indiferença – e a libertadora cessação
de toda a produção condicionada e condicionadora da consciência dualista e da
existência marcada por dukkha. No que
respeita ao tema em apreço, o da identidade pessoal, reconhecer o modo como ela
verdadeiramente aparece, enquanto suposto ou imputação conceptual sem qualquer
raiz na impermanência e interdependência dos agregados psicofísicos, ou seja,
reconhecer a sua vacuidade, é num sentido ver que não há dualidade entre a sua
manifestação e a sua cessação e, num outro, mais fundo, é ir além destes mesmos
conceitos. Como diz um dos bodhisattvas
intervenientes no Sutra da Liberdade
Inconcebível: “A pessoa e a cessação da pessoa constituem dualidade. Ora a
pessoa é cessação da pessoa, pois aquele que vê a Aparência real da pessoa não
crê na pessoa nem na sua cessação. A pessoa e a sua cessação não são duas
realidades diferentes: permanecer neste estado sem apreensão nem terror é
aceder ao Real na não-dualidade” [50].
É este um ponto de capital importância, para prevenir
qualquer leitura niilista do Dharma do Buda, como as que muitas vezes precipitadamente
se fazem, entendendo-o como uma prática de negação ou aniquilação do “eu”. Como
escreve Walpola Rahula: “Não é absolutamente uma aniquilação do eu, porque em
realidade não há eu a aniquilar. Se há uma aniquilação, é a da ilusão que dá a
falsa ideia de um eu” [51].
Apontando a Via do Meio equidistante dos dois extremos,
eternalismo/realismo e niilismo, adesão ao ser ou ao nada, crença numa entidade
e substância intrínseca e permanente do eu e dos fenómenos ou postulado da sua
aniquilação – mas note-se que se considera mais grave o erro niilista do que o
eternalista, pelas suas habituais consequências éticas - , o Dharma do Buda
distingue entre a “verdade relativa”, que descreve o modo como as coisas
convencionalmente se manifestam, em função do intelecto conceptual e dualista,
e a “verdade absoluta”, que designa o seu modo real, para além da dualidade e
dos conceitos [52]. Neste sentido,
ensinamentos como o das Quatro Nobres Verdades, no Sutra da Roda da Lei, são considerados, ao nível do Mahayana, como
tendo ainda um sentido provisório, referente à verdade relativa, devendo ser
interpretados à luz da verdade absoluta e dos textos com um sentido definitivo,
esses “textos abissais”, como o Sutra da
Liberdade inconcebível, cuja simples escuta se diz purificar o espírito e o
destemor perante eles revelar os “praticantes de longa data” [53]. É o
que acontece no Sutra do Coração do
Conhecimento Transcendente, onde, ao nível da verdade absoluta, se
explicita a vacuidade dos cinco agregados da suposta individualidade, já
inerente ao primeiro sentido da sua identificação com dukkha, extraindo-se todas as suas consequências. Sendo indistintos
a vacuidade e os fenómenos, estes “não nascem nem cessam”. Os cinco agregados e
as seis formas e objectos das consciências não existem propriamente. Os doze
elos da produção condicionada, desde a ignorância até à velhice e à morte, não
existem nem cessam. O mesmo a respeito das quatro nobres verdades: não há dukkha, nem sua origem, nem sua
cessação, nem via. Não há, assim, “sabedoria” nem qualquer “fruto a atingir ou
a não atingir”, o que, num paradoxo apenas aparente, é na verdade o
estabelecer-se dos bodhisattvas no
“Conhecimento transcendente”. Sem véus mentais, sem medo do quer que seja, sem
qualquer “distorsão”, acedem assim ao “nirvana” [54].
É no mesmo sentido que no Sutra do Diamante, instando os
bodhisattvas a cultivarem um espírito que não se fixe, “coagule” ou “apoie” em
nada [55],
positivo ou negativo, em nenhum conceito, seu contrário ou sua ausência [56],
como os de “fenómenos”, “eu”, “ser animado”, “vida” ou “indivíduo” [57], o
Buda ensina que não há qualquer “entidade chamada “bodhisattva”” [58] e, a
seu próprio respeito, que não pensa haver atingido qualquer “fruto” da
libertação [59], que “não há ninguém de
real” a quem possa ser atribuída tal qualificação, que não possui “qualquer
realidade de Buda completamente revelada na Iluminação”, que “não ensinou
qualquer doutrina que seja” [60],
nenhuma “realidade” [61] e
“nenhum Dharma” [62], e que, se bem que guie “inumeráveis
seres” “além do sofrimento”, em verdade jamais algum “ser animado” se libertou [63] ou
foi libertado por si [64].
Totalmente incondicionado e inconcebível, no sentido de ser inapreensível por
qualquer conceito, “o Despertar insuperável, autêntico e perfeito é desprovido
de eu, de qualidade de ser sensível, de vida, de individualidade” [65]. É
por isso, como se explicita, que ver os Budas é ver a “realidade absoluta”,
enganando-se aqueles que julgam vê-los na sua forma física ou escutá-los no som
da sua voz [66]. Segundo a interpretação
que o Buda faz da sua própria designação, “”Tathagata” significa “Que não vem
de lugar algum e não vai a lugar algum”” [67].
Convidando a ver “todos os fenómenos condicionados” como, entre outras imagens,
“uma ilusão mágica”, “um sonho, um relâmpago ou uma nuvem” [68], o
Buda mostra como o chamado “budismo” implica um desprendimento e uma
transcendência de todas as discriminações conceptuais e reificadoras, incluindo
as de “Buda”, “Dharma” e “verdade”. É neste sentido que compara “as numerosas
realidades do Dharma” a uma “jangada”, convidando ao desapego da ideia da sua
realidade ou irrealidade [69], e é
neste sentido ainda que proclama que no “Dharma” “não se encontra mais verdade
do que mentira” [70]. Sendo o Dharma útil e
eficaz para atravessar o oceano do samsara
em direcção à outra margem do nirvana,
à Iluminação – mas apenas enquanto se está no samsara de pensar que há alguém a iluminar, que há samsara e nirvana, com seus respectivos sujeitos, os seres sensíveis e os
Budas, enquanto entidades realmente existentes, em si e por si, que não sejam
ainda fenómenos condicionados por avidya,
a ignorância - , tudo se altera com o reconhecimento da vacuidade de tudo isso.
A Iluminação, ver o que antes se não via, ou o Despertar, o acordar de um sonho
por se o reconhecer como tal, é assim um estado aquém-além da subjectividade e
da sua negação, de posições e negações, de teorias, de filosofias. Nele não há
nem não há identidade pessoal. E, mais do que isso, a questão pura e
simplesmente não se coloca [71], por
mais estranho que isso possa parecer. Mas não será tão estranho se podermos
ficar um instante que seja com a mente calma e luminosa, tão vazia, livre e
infinita como o espaço...
Todavia, não chegámos ainda à última palavra do Dharma do
Buda. Se até aqui seguimos um caminho desconstrutivo, conforme a dialéctica
desenvolvida na escola Madhyamika, uma das duas grandes escolas do Mahayana,
por Nagarjuna – autor incontornável, cujo pensamento não podemos aqui expor - ,
convém abordar a questão segundo o espírito do Vajrayana, ou do terceiro e
final ciclo de ensinamento do Buda. Com efeito, se ao nível do primeiro ciclo
de ensinamento do Buda Shakyamuni se indica a identidade do “Incondicionado”
(“Asamkhata”, em pali) com o nirvana,
designando-os de uma forma puramente negativa, como “a extinção do desejo”, do
“ódio” e da “ilusão” [72], já
no Vajrayana se desenvolve a experiência das qualidades dessa natureza
primordial e profunda, ou Natureza de Buda, presente em todos os seres, além
dos limites da consciência obscurecida pelos conceitos e pelas emoções. É
aquilo que se designa rigpa, no
Ati-Yoga ou Dzogchen, a Grande Perfeição, o derradeiro dos veículos tântricos
na escola Nyingmapa, que visa a experiência directa e imediata da natureza
fundamentalmente livre e iluminada de todos os estados de consciência. Sendo a
Natureza de Buda idêntica à natureza da mente, e se bem que esta transcenda
conceitos e palavras, podemos considerá-la segundo três aspectos, absolutamente
indissociáveis e simultâneos, que aqui apresentamos segundo o ensinamento de
Kalu Rinpoche: 1 - vacuidade,
enquanto algo que não é uma entidade, com características conceptualizáveis,
sendo inobjectivável e assim livre, indestrutível, omnipresente e
omnipenetrante como o espaço; 2 – luminosidade-lucidez,
pela qual não é inerte mas antes dotada da capacidade de experimentar e
conhecer claramente, sem qualquer dualidade; 3 - inteligência ilimitada ou infinitude,
designando a infinita possibilidade de conhecimento e experiência, sem qualquer
limite ou obstáculo; aqui se inclui também uma dimensão afectiva e sensível, ou
seja, as espontâneas e infinitas manifestações da compaixão para libertar os seres iludidos no samsara. Sendo esta natureza da mente sempre a mesma, e a mesma “em
todos os seres, humanos ou não humanos”, Budas e seres comuns distinguem-se
apenas pelo reconhecimento ou não destas suas qualidades fundamentais, as
quais, não sendo reconhecidas, geram as formas habituais de consciência, tidas
por normais mas ilusórias [73].
Sendo a mente uma intemporal e omni-abrangente auto-consciência, idêntica ao
Buda primordial, Samantabhadra, há nela todavia, numa perspectiva, como uma das
suas possibilidades infinitas de experiência, a virtualidade de se não
reconhecer, de se obscurecer, de se desconhecer e de assim velar essa sua
natureza primordial, sempre presente e jamais maculada. É o véu da “ignorância
fundamental”, que se desenvolve no “véu da propensão fundamental” para a
dualidade sujeito-objecto, aquilo que se designa já como “ignorância determinada”.
Ignorando o “espaço” infinito da “vacuidade”, a mente substitui à experiência
primordial da consciência, “sem centro nem periferia”, a de “um ponto de
referência central a partir do qual tudo é percepcionado” e que se apropria de
todas as experiências como as suas
experiências. Nasce assim a ilusão de haver um “observador, o ego-sujeito”, a
ilusão da identidade subjectiva. Simultaneamente, não reconhecendo a natureza
auto-consciente da sua “luminosidade-lucidez”, a sua experiência converte-se na
de “alguma coisa de outro”. Nasce
assim a ilusão de haver objectos distintos, a ilusão da alteridade objectiva,
que assume duas formas, a dos fenómenos ditos externos e a dos fenómenos ditos
internos. Segue-se o “véu das paixões”, que resulta da concomitante ignorância
do terceiro aspecto da mente no seu estado primordial, a “inteligência
ilimitada”, que se converte na experiência de todas as formas de ilusória
relação que se podem verificar entre sujeito e objecto, do que resulta, ao
nível do sujeito, a atracção pelo que parece agradável, a repulsão pelo que
parece desagradável, a indiferença pelo que parece neutro. Na verdade, uma
absurda atracção, repulsa e indiferença da mente em relação a si mesma. Daí
resulta o derradeiro véu, o do “karma”, ou da “actividade condicionada”, na
medida em que aquelas três emoções se combinam na origem das seis – desejo
possessivo, ódio/cólera, ignorância ou torpor mental, orgulho, avidez/avareza e
inveja/ciúme – que promovem os múltiplos e ilusórios actos dualistas que fazem com
que a consciência primordial não menos ilusoriamente construa a experiência dos seus efeitos, renascendo sob
formas aparente e provisoriamente individuais nos seis mundos do samsara [74]. Os
quais, embora insatisfatória e dolorosamente experimentados como tais, não são
substancialmente reais, mas apenas estados de alucinação perceptiva,
projectados como ilusões mágicas pela força kármica do predomínio de uma
daquelas emoções: do desejo possessivo resulta o mundo humano, do ódio/cólera o
dos infernos, da ignorância ou torpor mental o dos animais, do orgulho o dos
deuses, da avidez/avareza o dos
espíritos ávidos e da inveja/ciúme o dos titãs ou semi-deuses. A mitologia de
cada um destes mundos é na verdade uma psicologia simbólica das nossas
profundezas pulsionais [75].
Todavia, recordando o que dissemos, estas pulsões não são
outra coisa senão a nossa natureza e energia primordiais manifestando-se
distorcidas pela ilusória dualidade. É como se, numa imagem, nós fôssemos
realmente vidya, a “inteligência
primordial”, um espaço insubstancial, luminoso e infinitamente aberto, sem
qualquer referência, e depois, subitamente, surgisse a “consciência de si”, a consciência de que “eu” estou
perante esse espaço, de que há “o espaço e eu”, o que o objectiva e solidifica
no mesmo lance pelo qual me objectivo e solidifico. O espaço primordial de vidya não desapareceu, apenas o deixámos
de reconhecer como tal, percepcionando-o agora, e a nós mesmos, como duas
entidades distintas. Havendo construído tal percepção dualista ignoramo-lo e, para nos confirmarmos e
assegurarmos naquilo que doravante nos cremos, e pela força do hábito, supomos
que a realidade sempre foi como a
passamos a percepcionar. É nisto que consiste avidya, a ignorância, a
qual é, num sentido, deliberada [76], pois
implica sempre, nas profundezas da consciência, simultaneamente a experiência
do espaço luminoso primordial e, como indica um dos sentidos do verbo ignorar, por exemplo em português e
inglês, não só o mero desconhecer mas o não fazer caso, o desconsiderar, o
desprezar, isso mesmo que se conhece e reconhece, fazendo de conta que assim
não é... Não podemos ir aqui mais longe, mas esta linha de interpretação
implica nesta ignorância um sentido
de hipocrisia e dissimulação da consciência que pode trazer nova luz a esta
questão.
É ainda neste sentido que o budismo tibetano,
fundamentalmente do Vajrayana, designa, como vimos, o Buda como Sangyé, indicando um estado de plena
purificação e manifestação ou desenvolvimento. Purificação no sentido de
remoção de todos os véus ou obscurecimentos atrás referidos – e que agora
podemos ver como tendo a sua raiz numa certa e absurda recusa do estado livre e
iluminado que não se pode deixar de ser - que é, implicitamente, a manifestação
ou o des-envolvimento plenos daquilo que sempre há no mais íntimo de cada ser [77]: a
vacuidade, luminosidade e inteligência/compaixão infinita, aquilo que, num
texto do Dzogchen, corresponde respectivamente aos três níveis da realidade,
Dharmakaya, Sambhogakaya e Nirmanakaya [78], ou
seja, à própria natureza do Buda primordial, e, no seu sentido mais profundo,
às Três Jóias de todo o budismo: Buda, Dharma e Sangha.
Não gostaríamos de terminar esta porventura penosa luta
contra os nossos hábitos e medos ancestrais sem uma sugestão, para quem no mínimo
possa ter a curiosidade de fazer a experiência, de um modo prático e simples de
reconhecer e redescobrir essa nossa natureza iluminada. A hipótese, a verificar
por si mesmo, como tudo no Dharma do Buda, é que ela está sempre presente no
âmago de todas as nossas experiências e percepções dualistas, conceptuais e
emocionais, e em particular nas seis emoções samsáricas atrás enumeradas. Se
formos então capazes de, no instante mesmo em que surgem, lhes prestar uma
plena atenção, consciencializando-as apenas, sem qualquer dualidade, sem
indiferença, apego ou aversão, sem as rejeitarmos e com elas entrar em
conflito, mas também sem nos deixarmos arrastar e distrair por elas, poderemos
por ventura constatar que as emoções auto-libertar-se-ão na experiência de um
particular aspecto da primordial sabedoria não-dual [79]. O
veneno ter-se-á transformado em antídoto pela virtude da alquimia natural do
não re-agir. E, sem ser necessário retirar-se do mundo, toda a situação e experiência
da vida quotidiana será uma oportunidade única para vermos quem realmente
somos. Este espaço livre e absoluto onde nunca houve ideia de eu ou de não-eu.
Mesmo que nele continuemos a fazer de conta: que não o vemos, que não o somos,
que a Liberdade e a Luz não são o nosso Bem mais íntimo e inalienável...
[1] Cf. Kalou Rinpoché, La voie du Bouddha selon la tradition tibétaine, prefácio de Sua Santidade o Dalai Lama, uma antologia de ensinamentos realizada sob a direcção do Lama Denis Teundroup, Éditions du Seuil, 1993, pp.37-38.
[2] Cf. Philippe Cornu, “Bouddha”, Dictionnaire Encyclopédique du Bouddhisme,
Paris, Éditions du Seuil, 2001, pp.87-93, pp.87-88.
[3] Cf. Philippe Cornu, «Vacuité», Ibid., pp.645-646.
[4] Cf. Soûtra
du Coeur de la Connaissance Transcendante, traduzido do tibetano por
Philippe Cornu, in Soûtra du Diamant et autres soûtras de la Voie médiane, traduções
do tibetano por Philippe Cornu, do chinês e do sânscrito por Patrick Carré,
Arthème Fayard, 2001, p.88.
[5] É num sentido afim, embora não coincidente, que em Mestre Eckhart se reconhece que a auto-posição do “eu” na existência é “causa” de que “Deus seja “Deus””, ou seja, de que a Gottheit, a Divindade, enquanto abismo primordial e indiferenciado, se manifeste como Gott, como um Deus com o atributo de o ser, como uma determinação, pela e para a consciência e o homem – cf. Mestre Eckhart, Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum caelorum, in Sermons, II, apresentação e tradução de Jeanne Ancelet-Hustache, Paris, Éditions du Seuil, 1978, p.149. Cf. também p.146. Sobre a questão, cf. Paulo A. E. Borges, “Ser ateu graças a Deus ou de como ser pobre é não haver menos que o Infinito. A-teísmo, a-teologia e an-arquia mística no sermão “Beati pauperes spiritu...”, de Mestre Eckhart”, in Signum, Revista da ABREM – Associação Brasileira de Estudos Medievais, nº4 (São Paulo, 2002), pp.49-69.
Eckhart indica a possibilidade de uma experiência não teísta de Deus. Como diz o Lama Denis Teundroup: «En ce
qui concerne Dieu (...), au niveau de cette connaissance non-dualiste, le «moi»
et l’ «autre» se révèlent être des illusions ; dans celle-ci «moi»
n’existant pas, «Dieu», l’Autre, n’existe pas non plus ! Néanmoins, cette
double inexistance du sujet et de son objet, qu’on appelle la non-dualité,
pourrait, par une logique paradoxale, être dite «l’ultime existence de Dieu».
Mais un théiste ne serait sans doute pas d’accord ?» - Le Dharma et la Vie (entretiens avec
Philippe Kerforne), Paris, Albin Michel, 1993, pp.50-51.
[6] Boécio, De duabus naturis et una persona Christi, cap.3; PL 64, 1345.
[7] Cf. os extensos artigos de Joaquim Teixeira, “Hipóstase” e “Pessoa”, in Logos. Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 2, Lisboa/S.Paulo, Verbo, 1990, cols. 1138-1145 e Logos. Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 4, Lisboa/S.Paulo, Verbo, 1992, cols. 95-120.
[8] Cf. Joaquim Teixeira, “Hipóstase”, in Logos. Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 2, col. 1139.
[9] Cf. Id.,
Ibid., col. 1141.
[10] Cf. Id., “Pessoa”, in Logos. Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 4, col. 97.
[11] Cf. Homero, Odisseia, IX.
[12] Cf. Stanislas Breton, Rien ou Quelque Chose. Roman de
métaphysique, Flammarion, 1987, pp.14-19. Cf. o “inefável”
ou “nada absoluto segundo o melhor” de Damáscio - Traité des premiers Principes. I. De l’Ineffable et de l’Un, texto
estabelecido por Leendert Gerrit Westerink e traduzido por Joseph Combès,
Paris, Belles Lettres, 1986, pp.4-22. Cf. também Enrico Castelli-Gattinara, “Quelques considérations sur le
Niemand et ... Personne”, in AA.VV.,
Folie et Déraison à la Renaissance, Bruxelas, Éditions de l’Université de
Bruxelles, 1976, pp.109-118.
[13] Cf. Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, II, A Farsa da Lusitânia, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, pp.572-574.
[14] Cf. Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, I, Auto da Barca do Inferno, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, p.211. Claro que o “Não sou ninguém” também pode ser lido no sentido oposto, como afirmação de se ser alguém... Mas também é defensável a ideia de que só quem não presume ter identidade pessoal é alguém de valioso, de são, ou digno de salvação, à luz da sapiência e moral evangélica do perder-se como salvar-se...
[15] Veja-se, entre múltiplos exemplos de uma menos conhecida visão em que a identidade do sujeito simultaneamente se multiplica e desvanece: “Somos uma turba e ninguém” – Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo (versão inédita), Obras Completas, introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, IX, Amadora, Livraria Bertrand, s.d., p.215.
[16] Cf. Bernardo Soares, Livro do Desassossego, in Fernando Pessoa, Obras, II, organização, introdução e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1986, p.570. Cf. Paulo A. E. Borges, “”Posso imaginar-me tudo porque não sou nada. Se fosse alguma coisa não poderia imaginar”. Vacuidade e autocriação do sujeito em Fernando Pessoa”, in Pensamento Atlântico. Estudos e Ensaios de Pensamento Luso-Brasileiro, Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 2002, pp.319-332.
[17] Cf. Roger-Pol Droit, Le Culte du Néant. Les philosophes et le Bouddha, Paris, Éditions
du Seuil, 1997; Frédéric Lenoir, La
rencontre du bouddhisme et de l’Occident, Paris, Librairie Arthème Fayard,
1999, pp.81-209.
[18] Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch, A Mente Corpórea, Ciência Cognitiva e Experiência Humana, tradução de Joaquim Nogueira Gil e Jorge de Sousa, Lisboa, Instituto Piaget, 2001, p.282.
[19] Cf. Dhammacakkapavattanasutta, Samyutta-nikaya, Sacca-samyutta, II, I, in Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de textes, Éditions du Seuil, 1978, pp.122-124, p.123. Cf. Carlos João Correia, “O Sermão de Benares”, Communio, nº3, Ano XVII (Lisboa, Maio-Junho de 2000), pp.266-276.
[20] Cf. Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude
suivie d’un choix de textes, pp.36-37.
[21] Cf. Dhammacakkapavattanasutta, Samyutta-nikaya, Sacca-samyutta, II, I, in Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de textes, pp.122-124, p.123.
[22] Salvo indicação em contrário, transcreveremos os principais termos budistas na fonética do sânscrito, língua na qual são mais conhecidos.
[23] Cf. Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude
suivie d’un choix de textes, pp.40-45; Philippe Cornu, “agrégats (cinq)”, Dictionnaire Encyclopédique du Bouddhisme,
p.36.
[24] Cf. Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de textes, pp.45-46.
[25] Cf. Paulo A. E. Borges, “Mente, Ética e
Natureza no Budismo. A constituição kármica da experiência do mundo”, in AAVV.,
Ética Ambiental. Uma Ética para o futuro,
organização e coordenação de Cristina Beckert, Lisboa, Centro de Filosofia da
Universidade de Lisboa, 2003, pp.149-163.
[26] Cf. Dhammacakkapavattanasutta, Samyutta-nikaya, Sacca-samyutta, II, I, in Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de textes, pp.122-124, p.123.
[27] É o caso do silêncio em que o Buda se manteve perante as questões de
Vacchagotta, que lhe perguntou primeiro se há um “Atman” e, depois, se não há
um “Atman”. Depois de o seu
interlocutor partir, o Buda explicou a Ananda que, além de outras razões, o seu
silêncio visou evitar que assumisse quer uma posição e teoria eternalista, quer
uma posição e teoria niilista. Na verdade, como explicou noutra ocasião ao
mesmo Vacchagotta, o Buda “não tinha teoria porque tinha visto a natureza das
coisas” - Walpola Rahula, L’enseignement
du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de
textes, pp.88-89.
[28] Cf. Santo Agostinho, De libero arbitrio, II, III, 7; De
civitate Dei, XI, 26; De Trinitate,
X, 10, 14; Descartes, Discours de la
Méthode, VI, 32; Principia philosophiae,
VII, 17; Meditationes de prima
philosophia, II, 3.
[29] Já o mesmo não acontece, note-se, em algum pensamento português, onde a dúvida do sujeito a respeito da sua própria existência é um tema prefigurado em Antero, implícito em José Marinho e explícito em Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Veja-se, por exemplo, quando este escreve, numa das suas quadras filosóficas: “Primeiro há um pensamento / que pensa sem pensador / e logo pensa quem pensa / que pensa tudo ao redor” - Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, s.l., Ulmeiro, 1990, p.102.
[30] Buddhaghosa, Visuddhimagga, Londres, Pali Text Society, p.513.
[31] Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens, pp.46-47.
[32] Cf. Dhammacakkapavattanasutta,
Samyutta-nikaya, Sacca-samyutta, II,
I, cit. in Walpola Rahula, L’enseignement
du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de
textes, pp.122-124, p.123.
[33] Cf., por exemplo, Vinayapitaka e Majjhima-nikaya. Cf. André Bareau, O Buda. Vida e Ensinamentos, tradução de Maria Bragança, posfácio de Vítor Pomar, Lisboa, Editorial Presença, 2000, pp.62-70.
[34] Cf. Philippe Cornu, “interdépendance
(origines interdépendantes, production conditionnée)”, Dictionnaire Encyclopédique du Bouddhisme, pp.258-261.
[35] Sobre a distinção entre ensinamentos definitivos e interpretáveis cf., por exemplo, Dalai Lama, Estágios da Meditação, tradução de Paulo Borges, revisão de Conceição Gomes, Lisboa, Âncora Editora, 2001, pp.90-92.
[36] “Soûtra de la Pousse de riz”, traduzido do tibetano por Philippe Cornu, in Soûtra du Diamant et autres soûtras de la Voie médiane, traduções do tibetano por Philippe Cornu, do chinês e do sânscrito por Patrick Carré, Fayard, 2001, p. 98.
[37] Ibid., p.111.
[38] Ibid., pp.105-106.
[39] Ibid., pp.107-108.
[40] Ibid., pp.109-110.
[41] Chamando a atenção para a sua evidente afinidade com a imagem de Heraclito, Walpola Rahula cita estas palavras do Buda, por ele atribuídas a um “Instrutor” chamado Araka, existente num “passado obscuro”: “ Ó Brahmana, é exactamente como um rio de montanha que vai para longe e corre rápido, arrastando tudo com ele; não há um momento, um instante, um segundo em que ele pare de correr, antes vai sem cessar fluindo e continuando. Assim, Brahmana, é a vida humana, semelhante a este rio de montanha” – Anguttara-nikaya, edição de Devamitta Thera, Colombo, 1929, cit. in Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de textes, p.46. Também, noutras palavras do Buda, “o mundo é um fluxo contínuo”, “impermanente” – cf. Walpola Rahula, Ibid.
[42] Cf. “Soûtra de la Pousse de riz”, in Soûtra du Diamant et autres soûtras de la
Voie médiane, pp.112-113 e 115.
[43] Cf. Ibid.,
pp.114-115.
[44] Cf. Ibid.,
pp.115-117.
[45] Cf. Ibid., p.117.
[46] Como diz o Lama Denis Teundroup: “A abordagem da vacuidade é a ausência de apoio conceptual, é mais do que uma filosofia entre outras pois ela desemboca numa prática que efectua uma “saída” fora das filosofias e das abordagens intelectuais” – Le Dharma et la Vie, p.53.
[47] Cf.
. “Soûtra de la Pousse de riz”, in Soûtra
du Diamant et autres soûtras de la Voie médiane, pp.117-118.
[48] Cf. Patrul Rinpoche, Words of My Perfect Teacher, traduzido pela Comissão de Tradução
Padmakara, prefácios de S. S. o Dalai Lama e de Dilgo Khyentse Rinpoche, Walnut
Creek/Londres/Nova Deli, AltaMira Press – Sage Publications, 1998, edição
revista, pp.244-245.
[49] Cf. Dhammacakkapavattanasutta,
Samyutta-nikaya, Sacca-samyutta, II,
I, cit. in Walpola Rahula, L’enseignement
du Bouddha d’après les textes les plus anciens. Étude suivie d’un choix de
textes, pp.122-124, p.123.
[50] Soûtra de la Liberté inconcevable. Les enseignements de Vimalakirti, traduzido do chinês por Patrick Carré, Fayard, 2000, p.139. É talvez este o sentido profundo do que Taisen Deshimaru designa como “o encontro de Buda e do ego, a fusão de buda e da personalidade própria” – Grands Classiques Zen. San Do Kai. Kannon Gyo. L’identité de la rencontre et de la réunion. Le sutra d’Avalokitesvara, traduzidos e comentados pelo mestre Taisen Deshimaru, Paris, 1997, p.21.
[51] Cf. Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens, p.60.
[52] Cf. Shantideva, The Way of the
Bodhisattva [Bodhicharyavatara], traduzido do tibetano pela Comissão de tradução
Padmakara, Prefácio de S. S. o Dalai Lama, Boston/London, Shambala, 1997, IX, 1-8, pp.137-138. Cf. também Gueshe Georges Dreyfus, Les Deux Vérités selon les quatre écoles,
Marzens, Vajra Yogini, 2000.
[53] Soûtra de la Liberté
inconcevable. Les enseignements de Vimalakirti, p.190.
[54] Cf. Soûtra
du Coeur de la Connaissance Transcendante, traduzido do tibetano por
Philippe Cornu, in Soûtra du Diamant et autres soûtras de la Voie médiane, traduções
do tibetano por Philippe Cornu, do chinês e do sânscrito por Patrick Carré,
Arthème Fayard, 2001, pp.88-89.
[55] “Soûtra du Diamant”, traduzido do
tibetano por Philippe Cornu, in Soûtra du
Diamant et autres soûtras de la Voie médiane, pp. 35-36.
[56] Cf. Ibid.,p.44.
[57] Cf. Ibid.,
pp. 51 e 53.
[58] Cf. Ibid.,
pp.22, 27, 32, 43, 53.
[59] Cf. Ibid.,
pp.32-33.
[60] Cf. Ibid.,
pp.29 e 60.
[61] Cf. Ibid.,
p. 40.
[63] Cf. Ibid.,
pp.21-22.
[64] Cf. Ibid.,
p.63.
[65] Cf. Ibid.,
p.61.
[66] Cf. Ibid.,
p.65.
[67] Cf. Ibid.,
p.68.
[68] Cf. Ibid.,
p.74.
[69] Cf. Ibid.,
p.28.
[70] Cf. Ibid., p.45.
[71] Se os Budas, como diz Nagarjuna, falaram do “eu” e ensinaram também o “não-eu” e a não existência de “eu” nem de “não-eu”, foi apenas como propedêutica da vacuidade e do “nobre silêncio” (aryas tusnibhavah) inerentes ao reconhecimento de que nenhuma das quatro predicações lógicas possíveis pode realmente expressar a natureza última do que quer que seja: é, não é, é e não é, nem é nem não é – cf. Nagarjuna, Stances du Milieu par Excellence (Madhyamaka-karikas), traduzido do original sânscrito, apresentado e anotado por Guy Bougault, Gallimard, 2002, 18, 6, p.232.
[72] Cf. Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens,
p.59.
[73] Cf. Kalou Rinpoché, La voie du Bouddha selon la tradition tibétaine, pp.52-56.
[74] Cf. Ibid.,
pp.59-63. Cf. também Id., Bouddhisme
Profond , pp.111-112.
[75] Para uma apresentação desenvolvida dos seis mundos, cf. Patrul Rinpoche, Words of My Perfect Teacher, pp.61-99. Para uma introdução breve, cf. Tsering Paldrön, A Arte da Vida. Valores Humanos no Pensamento Budista, Cascais, Pergaminho, 2001, pp.66-76.
[76] Cf. Chögyam Trungpa, Pratique de
la voie tibétaine. Au-delà du matérialisme spirituel, traduzido do americano por Vincent
Bardet, nova edição revista, Éditions du Seuil, 1976, pp.129-132.
[77] Cf. Kalou Rinpoché, La voie du Bouddha selon la tradition tibétaine, p.63.
[78] Cf. Dudjom Lingpa, Buddhahood Without Meditation. A Visionary Account Known as “Refining
Apparent Phenomena (Nang-jang)”, traduzido do tibetano por Richard Barron,
sob a direcção de Chagdud Tulku Rinpoche, Junction City, Padma Publishing,
1994, p.89.
[79] Como diz Longchenpa: “Though attachment,
aversion, dullness, pride, and envy may arise, fully understand their inner
energy; recognize them in the very first moment, before karma has been
accumulated. In the second moment look nakedly at this state and relax in its
presence. Then whichever of the five passions arise becomes a pure presence,
freed in its own place, without being eliminated. It emerges as the pristine
awareness that is clear, pleasurable, and not conditioned by thought” – You are the Eyes of the World, traduzido
por Kennard Lipman e Merrill Peterson sob a inspiração de Namkhai Norbu,
Ithaca, Snow Lion Publications, 2000, pp.41-42.