RECENSÃO AO ARTIGO PERSONAL IDENTITY DE DEREK PARFIT



 No seu artigo “Personal Identity”, Derek Parfit, partindo de um caso‑problema, critica duas crenças acerca da identidade pessoal. A primeira, é que esta deve ter uma resposta, da qual advêm consequências morais. A segunda, é que se não tiver uma resposta não podemos responder a certas questões importantes, como sobrevivência, memória e responsabilidade.

Parfit considera o problema dramatizado por Wiggins: o caso do homem que, à semelhança de uma amiba, se divide. O meu cérebro é dividido e cada metade colocada num novo corpo. Ambas as pessoas que resultam desta operação têm o meu carácter e as memórias aparentes da minha vida.   O que me acontece? Existem três hipóteses:

 

1) Não sobrevivo;

2) Sobrevivo como uma das duas pessoas que resultam;

3) Sobrevivo como as duas pessoas que resultam;

 

Parfit rejeita 1) e 2). Em 1) não vê como é que uma pessoa que sobrevive com metade do cérebro não possa sobreviver, se a outra metade for igualmente transplantada com sucesso; e em 2) a similitude dos cérebros anula esta possibilidade.

Quanto a 3), não podemos sobreviver como pessoas diferentes, se sobreviver implica identidade. Parfit coloca então a possibildade de a pessoa sobreviver com dois corpos e uma mente dividida, o que se revela impossível, uma vez que as pessoas que resultam passariam a agir como duas, diferenciando-se. Mesmo a hipótese de das duas conjuntamente emergir uma terceira pessoa mostra-se pouco plausível, face às objecções quanto à alteração do conceito de pessoa e ao caso do homicídio (duelo em que uma das pessoas resultantes mata a outra).

A solução definitiva proposta é que sobrevivo como duas pessoas, se separarmos o conceito de sobrevivência do de identidade. Posso sobreviver como várias pessoas, sem ter a mesma identidade que as minhas pessoas-resultado.

A relação da pessoa original com cada uma das pessoas que resulta contém tudo o que nos interessa num caso vulgar de sobrevivência (relações particulares, não uma relação geral de identidade).

Na verdade, utilizamos identidade para implicar continuidade psicológica (psychological continuity). Se esta tomar uma forma ramificada, a identidade deixará de ser o que importa.

Parfit advoga que é necessário sugerir um sentido no qual ambas as pessoas possam sobreviver como duas. E desenvolve este ponto de vista em três etapas:

a) Sobrevivência não implica identidade. As pessoas-resultado são os "later selves" da pessoa original e podem referir-se a ela como o "my past sef", através de ligações psicológicas (psychological connectedness).

b) O que importa em questões de sobrevivência são relações de grau, ou seja, ligações psicológicas.

c) Por conseguinte, nenhuma das relações precisa de ser descrita de uma forma que implique identidade. Muitas destas relações são produto de continuidade psicológica, o que não pressupõe a contínua existência de uma pessoa. É possível pensar as experiências de uma maneira impessoal.

Deste modo, para Parfit, o que importa na existência contínua de uma pessoa são relações de grau. Esta visão tem como consequência que a identidade pessoal não é o que importa nem que deve ter uma resposta, o que tem óbvias implicações morais.

Defendo, contra Parfit, que a hipótese 1) é a correcta, que 2) tem um erro justificativo e que 3), na qual o autor aposta, está incorrecta.

Analisemos 2) Sobrevivo como uma de duas pessoas. Parfit nega esta hipótese como implausível. Cada metade do meu cérebro é exactamente semelhante à outra, nas pessoas resultantes. Logo, como posso sobreviver como uma? O que critico é a similitude dos cérebros resultantes. Sabemos hoje que o cérebro actua como um todo e que a complexidade cerebral é tamanha que boicotaria a hipótese de uma exacta similitude. Mas aqui concordo com Parfit num aspecto. Se o resultado da operação for um êxito, isto é, se as duas metades do cérebro colocadas em corpos distintos derem origem a duas pessoas funcionais, não podemos dizer que só uma das pessoas é que sobrevive. O que Parfit quer pôr em voga com esta hipótese é o facto de aquilo que nos interessa em termos de identidade (memória, intenções, etc.) ficar concentrado em apenas uma pessoa em detrimento da outra. A hipótese da exacta similitude termina com este problema. Mas mesmo que as duas metades não fossem exactamente semelhantes, dar-se-ia sempre origem a duas pessoas.

No que respeita a 3) sobrevivo como duas. Para censurar a visão de Parfit, vamos recorrer a um exemplo comparativo. Mas primeiro salientemos alguns pontos do pensamento de Parfit para, mais tarde, contrapormos ao exemplo apresentado:

1. As  duas metades do cérebro são tratadas como entidades simples, idênticas entre si, mas diferentes do original. Embora critique esta visão, assumi-la-ei aqui para rebater o argumento.

2. Num primeiro momento, logo a seguir à cisão, são idênticas. Depois, num segundo momento, começam a diferenciar-se.

3. As experiências são tratadas de uma maneira impessoal. Como tal, podem tornar-se propriedade de diversos indivíduos se forem transplantadas (q-memória, q-intenção, etc).

4. Continuidade psicológica é o fio que une as diversas ligações psicológicas.

5. Utilizamos a identidade para implicar continuidade psicológica. Quando esta se ramifica, a identidade deixa de ser o que importa.6. A sobrevivência assenta em ligações psicológicas. Um exemplo de uma ligação psicológica pode ser a q-memória que existe entre a pessoa original e a pessoa que resulta.

Tomaremos agora como exemplo comparativo o caso da amiba , usado aliás por Parfit para cotejar o seu exemplo, que se reproduz por cisão binária:

1.1 As amibas que resultam da cisão são entidades simples (B=C)#A, idênticas entre si, mas diferentes do original .

1.2 As propriedades de A passam para B e C. B fica com as mesmas propriedades que C, e o inverso também é válido.

1.3 No momento logo após a cisão, B e C são idênticos. Depois, num segundo momento, podem diferenciar-se (B pode gerar D e E).

1.4 Há o fio XY que une as diversas ligações entre as amibas (X e Y).

1.5 Há uma continuidade de A para os restantes seres, em que esta lhe passa as propriedades 1.6 A sobrevivência da amiba (enquanto espécie) assenta na cisão binária. E essa cisão é ilustrada pela ligação X e Y em que o ser original (A,B,C) passa aos seus descendentes (respectivamente, B, C; D, E; F, G) as suas propriedades.

Como podemos constatar o caso Wiggins e o caso amiba apresentam uma grande proximidade.

Podemos agora pôr a mesma questão e as mesmas hipóteses para o caso amiba que pusemos para o caso Wiggins. A amiba A:

a) não sobrevive;

b) sobrevive como uma de duas;

c) sobrevive como as duas.

Ora, b) é implausível pelas razões que já apresentámos. Quer sobreviva como B, quer sobreviva como C, se B=C, então sobrevive como dois. Quanto a c), a amiba A sobrevive como duas amibas (B,C)? Sim, se sobreviver significa a sobrevivência da espécie. Com efeito, a amiba A cinde-se para se reproduzir e assim assegurar a continuidade da espécie. No entanto, há que distinguir entre duas noções: a sobrevivência da espécie e a sobrevivência do indivíduo. Estes dois conceitos, embora diferentes cruzam-se em diversos pontos. De facto, a espécie, composta por um conjunto de indivíduos, não precisa que todos se reproduzam para subsistir (basta alguns), enquanto que a sobrevivência do indivíduo não depende da reprodução. Assim, se se tratar da sobrevivência da espécie, a amiba sobrevive como duas (B, C), confirmando-se a hipótese c). Contudo, não estamos a tratar da sobrevivência da espécie, mas da sobrevivência do indivíduo. E, neste sentido, faz-se jus à hipótese a) a amiba A não sobrevive. O que se passa neste caso pode ser aplicado ao caso Wiggins: não sobrevivo.

Por outro lado, existe outra questão pertinente. Quando a amiba B e C surgem, a amiba A desaparece. Que poderiam "dizer" as duas novas amibas relativamente à sua ancestral? Provavelmente que pertenceram a A, tal como um filho pertenceu à sua mãe. Da mesma maneira, as duas metades do cérebro, implantadas em dois corpos distintos, pertenceram a um cérebro original que sumiu. Ao mesmo tempo, as propriedades da amiba A são transferidas para B e para C, da mesma forma que as propriedades (experiências impessoais) do cérebro original são transferidas para as duas metades resultantes que, por sua vez, a transmitirão para a sua descendência (se voltarem a dividir-se).

Parfit sustenta que se a continuidade psicológica a assumir uma forma ramificada, a identidade deixará de ser o que importa. Neste ponto, apoia-se no facto de uma pessoa sobreviver como duas para colocar de fora a importância da identidade. Mas ao pôr a pessoa a sobreviver como duas comete um erro (julgo). As duas metades resultantes vão desenvolver com o cérebro original relações de pertença. As relações de pertença envolvem identidade. Parfit afirma que essas relações, ligações psicológicas, não implicam a identidade (pessoal), pois as pessoas que resultam contêm tudo o que interessa num caso vulgar de sobrevivência (relações particulares). O que critico é precisamente esse "tudo o que nos interessa". Parfit baseia a sobrevivência em relações particulares, de pertença. Com efeito, tenho várias relações particulares: posso pertencer a um clube, a uma família, a uma nação, mas isso assegurará a minha sobrevivência? Quem nos diz que o que interessa em matéria de sobrevivência é o meu carácter e as memórias aparentes da minha vida? A sobrevivência não poderá ser uma relação global, envolvendo várias variantes, como o que sou para mim próprio? Em nome das relações particulares, Parfit subtrai o conceito de identidade ao de sobrevivência. Mas aqui parece confundir a identidade do grupo com a identidade pessoal. Pertencer a um grupo, seja um clube, uma nação, ou uma família pode fazer parte da minha identidade pessoal, mas não a define, embora talvez o que constitua a identidade do grupo seja ter membros componentes, como eu. À semelhança disto, ter memórias e carácter pertencentes a outrem não me identifica como pessoa. A Parfit faltou provavelmente a noção ricoeuriana do que eu sou para mim próprio.   Em suma, pretendi criticar a solução do caso-problema Wiggins apresentado por Parfit. Censurei a justificação para 2) e servi-me de uma analogia para rebater 3). Com as minhas chamadas de atenção, tive o intuito de tentar abolir a imagem de que sobrevivência não implica identidade. Com essa finalidade, ofereci como solução a hipótese 1) do caso Wiggins, ao mesmo tempo que tentei mostrar que as convicções de Parfit se apoiam numa confusão entre sobrevivência do indivíduo e sobrevivência da espécie, entre identidade pessoal e identidade de grupo. A sobrevivência da espécie parece diluir-se com a identidade pessoal.

 

BIBLIOGRAFIA:

PARFIT, Derek, “Personal Identity”, The Philosophical Review 80 (1971) nº1, in John Perry (ed.), Personal Identity, Berkeley et al., University of California Press, 1975, pp.199-223.

LOUX, J.Michael (ed.), Metaphysics contemporary readings, 1ª edição, London, Routledge, 2001

BAILEY, Jill, A biologia, Minho, Círculo dos Leitores, 1996.

http://www.onelang.com/encyclopedia/index.php/Derek_Parfit

http://www.princeton.edu/~jimpryor/courses/intro/notes/fisson.html #proposal5

http://www.princeton.edu/~impryor/courses/intro/notes/parfit.html http://ccwf.utexas.edu/~govind/stories/identity.html

 

 

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