A Relação da Memória com a Identidade Pessoal.

Aspectos filosóficos em Blade Runner de Ridley Scott.

 

 

 

            Definir o que se entende por identidade pessoal não é tão fácil ou óbvio como pode parecer, pois inúmeros são os obstáculos com que nos deparamos. Segundo Locke, o critério da identidade pessoal só poderá ser definido pela identidade de consciência, i.e., ter consciência das nossas acções passadas e presentes de tal modo que nos lembremos de termos sido nós a fazer e sentirmos ter feito determinadas acções ao longo de um determinado tempo. Deste modo, John Locke parece destacar o papel da memória para que a tal consciência de si (o Self) seja possível. Não obstante a crença intuitiva de que temos algo em nós que nos diferencia uns dos outros, quando somos interrogados acerca de quem somos a nossa primeira reacção é descrever a nossa identidade biográfica, e depois se nos continuarem a inquirir possivelmente iremos destacar as nossas qualidades físicas, mas tais descrições podem não ser suficientes se nos depararmos com um inquiridor persistente (uma espécie de Sócrates moderno que quer saber tudo ao mais ínfimo pormenor). Provavelmente, o que faremos se tal inquiridor não ficar satisfeito com a nossa definição, é insistir no critério determinante da consciência que temos de nós próprios e que constrói o que chamamos identidade pessoal.

Mas para termos esta consciência precisamos de destacar a relevância que a memória tem no papel da mesma. Mas até que ponto pode a memória ajudar-nos a fornecer provas de que temos uma identidade pessoal?

Embora a memória possa estabelecer a ligação entre os vários estados de consciência que temos ao longo da nossa vida, ou seja, desde o momento em que nascemos e vamos construindo as nossas próprias memórias até ao momento presente. Apesar de tudo, podemos, em algum momento das nossas vidas, duvidar das nossas memórias e ainda que tal não aconteça podemos ao menos conjecturar possíveis situações como o implante de memórias (com ou sem autorização por parte de quem sofre esta cirurgia). Se algum dia houver a possibilidade de memórias que não são nossas serem implantadas em nós, estas podem levar à co-existência de dois indivíduos (ou mais) num mesmo corpo e assim, de tal modo que, poderia passar de um estado de consciência que é meu para outro que não o é embora pudesse pensar que fosse. Para tal, basta recordar a distinção lockeana entre “ser pessoa” e “ser humano” pois assim não se torna equívoco para nós compreender que várias “pessoas” possam habitar num mesmo “corpo” ou numa mesma matéria.

            Dentro desta perspectiva podemos inserir o filme Blade Runner, datado de 1982. Este filme realizado por Ridley Scott e baseado num conto do famoso escritor Phillip K. Dick, autor bastante conhecido pelas suas histórias onde se destacam o papel da memória e da identidade pessoal, aborda inúmeras questões filosóficas entre os quais a inteligência artificial e o papel crucial das memórias na construção da identidade pessoal ou do SI (Self).

Poderemos achar na memória o critério da nossa identidade pessoal? Há uma coisa que temos de perceber: é que a memória é central para percebermos a identidade pessoal, aliás se não fosse pela memória não poderíamos recordar futuramente este momento. Uma das questões filosoficamente mais relevantes e até dramáticas que o filme levanta é o problema da falibilidade da memória. Até que ponto é que podemos confiar nas nossas memórias? O que é preciso para que comecemos a desconfiar das nossas memórias? Teremos nós motivos suficientes que nos assegurem de que as memórias que temos são de facto nossas e não necessitamos de duvidar delas? No caso da personagem Deckard (que supostamente representa os humanos no filme) a situação em que se encontra perante a sua identidade pessoal não é a de certeza, mas talvez a sua situação derive da sua incómoda profissão. Numa das ocupações da sua profissão, detectar a diferença distintiva entre humanos e replicantes, i.e., pessoas artificiais (se as podemos chamar de tal) por meio de um teste chamado Voight-Kampff, Deckard depara-se com um replicante, Rachael, que pensa ser um humano normal quando na verdade não o é. A situação de Rachael parece transportar-se para Deckard que, mesmo não se questionando acerca da sua identidade, pode muito bem encontrar-se na mesma posição de Rachael. Ainda assim isto é algo que apenas é sugerido por alguns pormenores ao longo do filme que talvez escapem a alguns espectadores (o sonho do Unicórnio de Deckard e a associação deste sonho de Deckard com o origami do Unicórnio que vemos já quase no fim do filme, entre outros pormenores). Mas quem é que lhe garante que ele não é um replicante? Deckard nunca chega a responder a Rachael se alguma vez já se submeteu ao teste Voight-Kampff. O facto é que também deste ponto de vista, nós (o espectador) parecemos ter mais informações sobre se Deckard é ou não um replicante, o que é interessante em relação ao ponto de vista de terceiros na construção da identidade pessoal. Por exemplo, Rachael só se consegue aperceber que é uma replicante, algo que já desconfiava, depois de Deckard lhe ter descrito as suas memórias e de lhe ter dito que eram de outrem, o que inclui a forte possibilidade de terceiros nos ajudarem (de maneira bastante relevante, neste caso particular) na construção do Self.

Tudo isto pode parecer mera especulação científica mas os avanços tecnológicos já começaram a permitir certas possibilidades que aquando da altura do filme não passavam disso mesmo, i.e., conjecturas ficcionais acerca do futuro. Temos por exemplo, o caso da clonagem que é uma realidade cada vez bem mais real (basta lembrar a ovelha Dolly) e que certamente nos vai colocar ainda mais embaraços em definir o que se entende por identidade pessoal. A implantação de memórias também é algo cada vez mais discutido actualmente embora ainda me pareça que se mantém num plano ficcional. Se de facto tal se vier a tornar realidade corremos o risco de nos virmos a tornar realmente cépticos (no sentido forte do termo) pois à medida que a cirurgia de implantes começar a ser posta em prática e, ainda mais grave, sem consentimento por parte de quem as sofre, passaremos a viver num permanente estado de dúvida acerca das nossas memórias e consequente identidade pessoal.

Portanto, o problema com que nos deparamos é achar uma certeza inquestionável para a questão da identidade pessoal. A mim parece-me que a questão mais importante no filme não é tanto descobrir se Deckard é ou não um replicante, mas sim o facto de se levantarem dúvidas quanto à identidade pessoal e não tomá-la como algo óbvio e que não necessita ser questionado, e isto independentemente de Deckard ser um humano ou um replicante até porque os próprios humanos podem não duvidar do facto de serem humanos e ainda assim terem dúvidas acerca de quem são. O que este filme nos mostra é que os progressos no campo da inteligência artificial podem vir a complicar ainda mais a definição de identidade pessoal que às vezes tomamos como garantida. Podemos por isso, afirmar que a inteligência artificial é uma faca de dois gumes na medida em que nos trará benefícios e desvantagens.

Só resta saber até que ponto os sentimentos que os replicantes desenvolvem, possivelmente a partir da observação de comportamentos humanos que guardam na memória, serão sentimentos iguais aos que os humanos têm. O filme não nos dá uma resposta conclusiva apesar de vermos replicantes a experienciarem sentimentos humanos básicos como a tristeza, ódio, amor, etc… (como vemos bem explicitamente na cena do piano e na parte final do filme onde um replicante salva a vida de um humano).

Mas também é verdade que esses sentimentos podem não ser naturais mas sim um programa que se rege por padrões lógicos rígidos para o qual cada determinada situação há um determinado comportamento, e isto obviamente só pode resultar de um processo mimético que consiste na observação de comportamentos e reacções de humanos. De tal modo, é-nos difícil distinguir os sentimentos entre humanos e replicantes.

            Mas apesar de tudo, será que temos de aceitar que existe uma identidade pessoal? A falta de identidade pessoal ou o estado de dúvida perante a mesma pode dar origem a estados de confusão ou até mesmo de angústia existencial como é o caso de Rachael ao descobrir que possuía memórias que não eram suas. Não basta dizermos que no caso de Rachael estamos em face de alguém que não é humano e que, portanto, a analogia não é válida porque estamos a verificar um caso hipotético de um pensamento artificial, o facto é que a situação vivida por este replicante é um fenómeno que acontece todos os dias no nosso quotidiano e daí muitas vezes a necessidade de recorrer a um psicólogo em busca de respostas à pergunta: Quem sou eu?

Parece que temos uma necessidade psicológica (se não mesmo ontológica) para postular um EU à nossa existência de modo a estabilizar-nos, ainda que não queiramos aceitar que temos uma identidade pessoal como foi o caso do filósofo escocês David Hume.

Numa situação como aquela em que Rachael se encontra, torna-se difícil traçar onde começa o EU verdadeiro e como poderemos distinguir as memórias que são nossas e as memórias que são de outrem. No caso desta replicante podemos avançar com uma possível resposta: distinguir os graus de vivacidade das experiências vividas (falando à maneira humeana). Rachael começa a desconfiar das suas memórias porque sente que muitas delas, nomeadamente as da infância não são suas. Ora, o motivo para esta desconfiança é que provavelmente Rachael só tem a chamada memória visual dos acontecimentos passados mas não tem a sensação de os ter vivido. Quem já não passou por situações como esta?

Quando nos lembramos de acontecimentos passados ainda que possamos sentir um grau de vivacidade mais fraco do que a experiência ou impressão presente, o facto é que sentimos algo quer seja mais fraco ou mais forte. Sentimos que já passámos pela experiência passada de que nos recordamos no momento presente. Temos a sensação mais forte que é a experiência presente e a sensação mais fraca que são as ideias que recordamos de momentos vividos no passado. Hume destaca bem este ponto na sua distinção entre impressões e ideias nas obras Tratado da Natureza Humana e Investigação sobre o Entendimento Humano. António Damásio na obra O Sentimento de Si fala de uma consciência do momento presente, o Si nuclear, e uma consciência alargada que nos permite recordar experiências passadas como sendo nossas e que a destruição desta consciência alargada não acarreta a destruição da consciência nuclear mas o inverso já não se verifica pois a destruição da consciência nuclear impossibilita a consciência alargada. Portanto, parece plausível conjecturar que embora Rachael se lembre de certas recordações passadas (e referimo-nos às implantadas no seu cérebro), o facto é que ela tem a memória visual dos acontecimentos passados, mas não parece ter o acompanhamento do mínimo grau de vivacidade ou de sensação de ter experienciado esses acontecimentos passados.

O caso de Rachael é como a hipótese que Bertrand Russell pôs sobre o mundo ter começado a existir à 5minutos. Pelo menos, para Rachael (e esse não é o nosso caso, espero eu) o mundo certamente teria começado a existir à muito pouco tempo embora ela não pudesse ter consciência disso devido ao implante de memórias falsas de que foi vitima, e assim julga ter uma infância e toda uma sucessão de acontecimentos que na verdade não lhe pertencem. Segundo a posição de Locke, Rachael seria considerada uma pessoa pois tem consciência de momentos passados sentidos como se tivessem sido vividos por si, ainda que tal só possa ser considerado dentro do âmbito de memórias ou experiências vividas que Rachael se lembra desde o momento em que foi criada ou concebida pela Tyrell Corporation, pois estas memórias certamente já têm um certo grau de vivacidade que Rachael consegue sentir como se fossem memórias que de facto tivesse experienciado. É verdade que não fica claro no filme que Rachael não sente nenhuma vivacidade em relação às memórias que não são suas, mas se de facto ela sente essas tais memórias como se as tivesse vivido então estamos perante um caso de fusão de duas pessoas. Deste modo, o caso de Rachael é bastante complicado de descortinar.

            Temos ainda a relação das memórias com os sentimentos. A certa altura do filme, Rachael, já após ter descoberto que é uma replicante e se encontrar em alguma confusão mnemónica, não consegue confiar nos seus sentimentos (ver cena do piano) porque a paixão que “parece” sentir por Deckard poderia não ser uma paixão genuína, pois sabemos pelas informações que nos são dadas no filme que passado algum tempo depois do seu fabrico os replicantes podem desenvolver os seus próprios sentimentos, mas sim uma paixão derivada das memórias que lhe foram implantadas de maneira a poder ser controlada para fins humanos.

            Tudo isto faz o tema da identidade pessoal no filme Blade Runner culminar com a questão: o que é ser humano? Ou num sentido ainda mais amplo, poder-nos-íamos questionar sobre o que é simplesmente Ser?

 

 

 

 

21 de Abril de 2005.

 

 

Trabalho realizado por Carlos E. P. Sacramento, nr.31146.

Curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Apresentado oralmente na disciplina de Tópicos de Metafísica.

 

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